* Fernando Rosa
... Quem é esse louco? ... pergunta alguém que se aproxima da tela do PC e dá uma espiada em um trecho da entrevista. Bem, o "louco" (no bom sentido, se é que existe outro) em questão é um dos artistas mais criativos, intensos, articulados e ... inclassificáveis do Rio Grande do Sul. Espremido entre nem ser rock, nem ser MPB, Arthur de Faria constrói uma carreira sólida, com ótimas composições, discos bem cuidados e textos inteligentes. Senhor F bateu um papo com ele por email, que rendeu a entrevista abaixo, mais do que suficiente para que se comece a conhecer o cara.
Senhor F - Como é fazer o tipo de música que tu fazes ai no RS, em meio ao tradicional "rock gaúcho" por um lado e o forte regionalismo pelo outro?
Arthur de Faria - Difícil. Bem difícil. Tanto pra mim quanto pra quase todos os outros artistas que também não se enquadram nem numa coisa nem noutra. E olha que eu tenho a maior simpatia por muitas coisas e muitos caras de ambos os gêneros, mas não consigo me sentir um artista de... A música que eu faço é muito inclassificável, e isso paga alguns preços. Um deles é esse, a relação meio incompreendida, de parte a parte, com o público daqui. E olha que a música que eu faço tá cada vez mais “sureña”, cada vez mais impregnada de sul. O próximo disco deve ser instrumental e com todas as músicas baseadas em ritmos daqui. Mesmo o disco mais recente, que é bem mais chegado ao pop e ao rock, tem zamba disfarçada (Tu e Eu), candombe (Sexo na Cabeça), nuevo tango (Revisitação)... mas cruzados com guitarras sujas, loops, muitos sopros, aquela nossa coisa toda...
Senhor F - Como chegaste nessa sonoridade, a partir de que influências musicais e estéticas? Quais as influências nacionais e, especialmente, regionais? Ou, quem sabe, latinas, ai da vizinhança?
Arthur de Faria - Piazzolla e Jobim. Dois dos maiores músicos da história, dois caras que eu considero meus patrimônios nacionais. Porque sim: a gente aqui se sente tão brasileiro quanto platino, sulista. Então o Brasil é minha pátria, mas os Estados Livres do Prata - como batizou um jornalista paulista -, esse trio Uruguai, Argentina e sul do Brasil, também é. E aí entra tudo. Se tu for na nossa página (www.seuconjunto.com.br) e clicar no nome de cada um, vai ver os discos que nos fizeram ser o que a gente é. As influências são muito variadas, mas cruzamos os dados e vimos que tinha três caras que quase todos citaram: Milton Nascimento, Arrigo Barnabé e Beatles. Então tu imagina uma banda cujas influências de formação são assim tão díspares! Mas as minhas mais profundas, como compositor e arranjador, são, além desses cinco (os três aí, mais Piazzolla e Jobim), o Thelonius Monk, o Charles Mingus, Black Sabbath, Pink Floyd, Stravinski, Bartók, Chico, Caetano, Caymmi, Vitor Ramil, Nico Nicolaiewski, Björk, Lou Reed, Leonard Cohen, Tom Waits, Lou Reed, Goran Bregovic, Emir Kusturica, Kurt Weill, Nino Rota, muito tango, muita milonga, muita música de raiz brasileira, pouquíssimo rock, muita música brasileira dos anos 30 e 40. Ultimamente muita música do leste europeu, muita música argentina, colombiana... E, é claro, literatura, cinema... Talvez o Borges e o Woody Allen e o Tim Burton e o Fernando Pessoa sejam tão importantes quanto qualquer um desses músicos que eu citei.
Senhor F - Conta um pouco da tua hístória ... Quando e como começou a carreira musical? Quantos discos já lançaste? Outros trabalhos? Parcerias?
Arthur de Faria - Comecei muito novo, fazendo uma coisa que é uma das que eu faço mais até hoje: trilha pra teatro. Com 12 anos comecei a tocar violão e, imediatamente, a compor. Com 12 anos e meio montei meu primeiro grupo, pra tocar minhas músicas, que eram totalmente MPB dos anos 70 (estávamos em 1981), mas também muito influenciadas pelos grupos gaúchos dessa mesma época, em especial o Musical Saracura - de onde saiu o Nico Nicolaiewski dos Tangos & Tragédias - e Os Almôndegas - de onde saiu o Kleiton & Kledir. O Marcão (guitarrista do Seu Conjunto) toca comigo desde essa época, mas ele era percussionista, e eu, violonista. Logo depois, aos 15, eu, ele e mais uns amigos, todos de minha cidade, Gravataí (a 24 km de Porto Alegre), montamos um grupo de teatro. Com produtor, diretor e... compositor. Eu era o compositor das trilhas. A primeira delas, Tema do Louco, a gente toca até hoje e gravamos no primeiro disco do Seu Conjunto (Música pra Gente Grande). Era beeem Nino Rota, um pouco Kurt Weill. E, sim, aos 15, eu era uma pequena malinha que já era fã do Kurt Weill e do Nino Rota. Mas nesse meio tempo a gente, como muitos em todo o Brasil, descobriu o Arrigo Barnabé. E eu sou músico por causa do ‘Clara Crocodilo’. Resolvi entrar pra Escola de Música da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, por onde passaram quase todos os integrantes do Seu Conjunto), pra estudar teoria e tentar entender aquela porra. Entendi, e vi que não dava pra fazer parecido sem parecer um sub-arrigo. Aí fui atrás do meu lance. Produzi discos de muita gente, arranjei, dirigi shows, montei dois grupos (o Bando Barato Pra Cachorro, de 89 a 91, fazia música brasileira dos anos 30 e muito sucesso, a Banda Complexo de Épico, de 92 a 95, era pós-tropicalista (?!?!?) e militou na mesma cena que fez nascer Aristóteles de Ananias Jr, Ultramen, Lorenzo y La Nota Falsa e muitos outros) e aí, no final de 95, resolvi finalmente montar uma banda pra tocar a minha música, onde eu fosse o vocalista. Estudei anos de canto e tal, mas finalmente saiu o Arthur de Faria & Seu Conjunto, em 96. Desde então, em 10 anos, a gente gravou quatro discos: ‘Música pra Gente Grande’ (metade canções, metade temas instrumentais), ‘Flicts’ (infantil, com zilhões de convidados, do Edu K ao Nelson Coelho de Castro), ‘Meu Conjunto Tem Concerto’ (todo de peças escritas por mim pra grupo e orquestra) e ‘Música pra Gente Grande’ (o mais barulhento e sortido, quase que só de canções). Esse último saiu no Brasil pela Yb, de São Paulo, e na Argentina e Uruguai, pela Random Records. ‘Música pra Gente Grande’ saiu pelo Núcleo Contemporâneo (também de SP), e o ‘Flicts’ e o ‘Meu Conjunto tem Concerto’ saíram pela gaúcha Barulhinho. Outros projetos, todos na banda tem. Eu há menos de dois anos tenho um duo com o ex-baterista dos Almôndegas (veja só) e do Saracura, atualmente no Papas da Língua, Fernando Pezão. Um projeto minimal, piano e voz + bateria, pra tocar temas meus, Beatles, Lou Reed, Fito Páez, Odair José, Roberto Carlos... um lance beeeeem conceitual no sentido de centrar o foco na canção. Em cantar bem e usar o mínimo pra fazer a canção brilhar. É bem circense, também. Beeeem circense. Fora isso, muitas trilhas pra cinema e teatro. Muitos prêmios também, u-huuu. E uma delas, feita pra Antígona, numa grandiosa montagem gaúcha do clássico do Sófocles, foi gravada, tá prensada e lá em casa, esperando que eu saiba o que fazer com os discos. O Duo Deno gravou seu primeiro disco, mas tá dando um tempo antes de mixar e ver o que fazer. Nesse meio-tempo, vamos fazer uns shows na Argentina.
Senhor F - Tu é um gaúcho clássico, que se espraia por outros continentes, até mais do que pelo próprio país ... Como é a tua relação musical com os vizinhos uruguaios e argentinos? Como iniciou essa relação de troca com os vizinhos da fronteira? Com quem tens contato nesses dois países? Tens discos lançado em algum desses países?
Arthur de Faria - Bueno, em maio, estava em Buenos Aires. Fui lá dar palestra sobre integração cultural do Mercosul. E fazer um show quase solo, eu e o trombonista do Seu Conjunto, o Julio Rizzo, num club de jazz novo que abriu lá. Julio Rizzo que estava lá porque? Porque foi ministrar uma oficina de trombone para os trombonistas do Teatro Colón, que tem a melhor orquestra de lá ! Ou seja: a integração a gente tá fazendo há horas, o tempo todo. Agora há pouco os guris do Nenhum de Nós - que também trabalham por isso, mais na cena rock, há tempos - trouxeram pra tocar em Porto Alegre a banda Bersuit, do Bersuit Vergabarat. E eles vão levar o Nenhum pra tocar lá. Eu aposto minha vida nisso há muito tempo. Acho que pra gente, gaúcho, o caminho mais lógico não é o Rio, é Buenos Aires. Até porque eu entendo como funciona Buenos Aires, como eu entendo como funciona São Paulo e Porto Alegre. São cidades republicanas, onde a lógica é a do trabalho, do talento, da persistência. Muito diferente desse Brasil que começa no Rio e segue pela Bahia, de cidades imperiais, onde a lógica é a do prestígio, das relações, de pertencer ou não a uma corte - no caso, não mais a da Família Bragança, mas a da família Global, por exemplo. É outra forma de pensar a vida, a arte, o showbizz. Meus avós iam muito a Buenos Aires, meus pais iam muito, eu vou muito. Não conheço nem Nova York nem Tóquio nem Barcelona, mas pra mim é uma cidade que empata com as grandes cidades do mundo: Paris, Praga, Budapeste, Istambul. E com a vantagem de ter uma cultura que se parece muito com a nossa, que é fundamental para a minha formação. Cresci ouvindo tangos clássicos e Mercedes Sosa com meu avô, Piazzolla com meus pais, rock argentino com os amigos. Já o Uruguai é uma delícia: uma espécie de Porto Alegre um pouquinho mais acanhada. Ali então, é impossível para um gaúcho não se sentir absolutamente em sua cidade. Então, como eu te disse, essa relação começa desde antes dos meus pais nascerem. A lua de mel dos meus avós foi em Buenos Aires! Rerererere. Mas, a nível profissional, lá pelo começo da década passada, quando já conhecia bem a cidade, fui pela primeira vez pra tocar, num festival que durou quase 10 anos, e que era genial: o Porto Alegre em Buenos Aires. Teatros cheios pra ver gaúchos tocando. Iniciativa de um produtor daqui, Luciano Alabarse, e um produtor de lá, Carlos Villalba - que até hoje é meu produtor informal para asuntos porteños -, bancado pelas prefeituras. Desde então nunca paramos de ir, ou o Arthur de Faria & Seu Conjunto - SEMPRE para teatros lotados, com ingressos pagos - ou eu, solo - em lugares menores. E aí, ano passado, lançamos nosso disco mais recente, o Música pra Bater Pezinho, também nesses dois países, Uruguai e Argentina, por uma gravadora argentina, a Ramdom Records. No Uruguai, a coisa é mais tímida. Fomos só duas vezes, a cidade é pequena, as estruturas pequenas. Mas sempre toco uruguaios. Em 1991 dirigi um show só de canções de um que eu acho genial, Leo Maslíah. Procurem na internet. É gênio. Já gravei várias músicas dele, já tocamos juntos em palcos argentinos, uruguaios e brasileiros. Além disso, sempre que eu posso, eu armo coisas. A última foi um encontro do Peninha Schmidt, quando era presidente da ABMI, com as gravadoras independentes da Argentina. Foi bárbaro. E além disso, a gente sempre dá um jeito de reencontrar os amigos de lá, a maior parte deles, músicos e produtores. Quem fala mal de argentino é porque nunca conversou com um. É uma gente fina, elegante e sincera. Eu adoro eles, e eles adoram qualquer coisa que venha do Brasil.
Senhor F - Também já andaste com teu conjunto por outros países do mundo... Quando e como foi a experiência? Rendeu algum fruto, além das apresentações?
Arthur de Faria - Há muitos anos que a gente tenta estabelecer uma carreira européia. Vários amigos paulistas, pernambucanos e argentinos já conseguiram, e sabem, como a gente, que isso não tem segredo. Tem que ter um trabalho que seja original, que diga de onde vem e ter muitíssima paciência e persistência. Isso tudo a gente tem. Só falta constância. A gente fez duas giras pela Europa, a primeira, bastante mambembe, em 1998. A segunda, mais estruturadinha, em 2000. Mas aí perdemos a produtora que tinha os contatos e só tamos voiltando agora, em setembro. Mas prum lance muuuito bacana: um festival chamado Mercat de Musica Viva de VIC, que é uma espécie de mostra de trabalhos legais pra programadores de festivais do mundo inteiro, que vão lá ver. A gente foi convidado pelo próprio curador do festival, que viu a gente num show onde? Na Argentina, claro, rererere. Só que na Europa é tudo muuuuito organizado, fechado com mais de ano de antecedência. A gente precisa pensar de um outro jeito. Mas acho que, devagarinho, a coisa vai. Sou um crédulo, um esperançoso. Acho que o Philip é o último que Morris (essa foi pra fuder!).
Senhor F- Recentemente, participaste do tributo ao Odair José, recriando um dos, ou seu maior clássico... Como rolou esse convite, essa participação? E como interagir com o nosso "rei do brega", ou melhor dizendo, um dos nossos mais importantes artistas populares?
Arthur de Faria - Bã. Eu fiquei sabendo do tributo e escrevi pro Sandro: "vocês NÃO PODEM fazer esse disco SEM mim!", rererereree. Eu gosto muito do Odair. Eu, o Marcão - guitarrista do Seu Conjunto -, o Karam - saxofonista -... Acho ele gênio. Acho que todo gênero tem seus mestres, seus inovadores e seus diluidores (o velho papo do Ezra Pound, né). E o Odair é o inovador. Tudo nele é original, dentro daquele cenários que a gente pode chamar de brega, de populares, sei eu o quê. Eu, que escrevo canções, sei o quanto é difícil, depois de 500 anos (a canção tem isso de vida, uns 500, 600 anos), tu ter uma idéia ORIGINAL pra alguma. E o cara teve várias. E outra coisa que me toca: sempre com uma imensa ternura por essa criatura perdida que é o ser humano. O olhar dele é sempre terno, compreensivo, delicado. Se tu for comparar com o Lupicínio Rodrigues, por exemplo: "não te darei carinho nem afeto / mas pra te abrigar / podes ocupar meu teto / pra te alimentar podes comer meu pão". Tudo porque a mina pisou na bola. Aí o Odair vai e diz que tudo bem, não tem problema, todo mundo pisa na bola. Ou então que não tem que ter vergonha de ser empregada, que não tem problema que a outra posou nua, nem precisava ter se mandado por causa disso etc etc. É uma rica alma! Como que eu não ia estar nessa?!?!? Tanto que o Sandro convidou a gente pra fazer esse outro tributo aos bregas e a gente não quis. Não é o gênero que me seduz, é o gênio. Mesma coisa com reggae: não gosto de reggae, sou apaixonado pelo Bob Marley. O gênio transcende o gênero, seja ele qual for.
Senhor F - Além de músico, pianista, cantor, compositor, tu tens outras duas frentes de atuação ... o radialismo e o jornalismo. Como é a experiência nessas áreas?
Arthur de Faria - Bueno. Jornalismo é algo que eu fiz durante uma época, e gostava muito. Escrevi sobre música, basicamente, na Zero Hora (jornal de Porto Alegre), na Veja - que, na época tinha a Vejinha aqui em Porto Alegre, que ia encartada, e esporadicamente pra um monte de revistas e jornais. Faz tempo que, lamentavelmente, não faço nada. Gosto muito de escrever. E acho que, escrevendo, sou irremediavelmente jornalista, para o bem e para o mal. Uso muito isso nas coisas outras que eu escrevo, como o livro que eu fiz sobre a História da Música do Rio Grande do Sul, que eu tou reescrevendo a zilhões de anos e não acabo nunca! Mas é livro de jornalista, não de historiador. Já o rádio foi um absoluto acaso. Não tá na lista das minhas paixões, nunca fui e sigo não sendo ouvinte de rádio. Mas trabalho numa rádio, já faz quase 14 anos! Caraca! Acabei gostando. Mas ainda me sinto mais jornalista que radialista.
Senhor F - Tu também trabalha com pesquisa musical, certo? Tens um livro sobre a história da música gaúcha. E também participastes do projeto musical (não lembro o nome) do Itaú Cultural. Como foi mergulhar na história da música do Rio Grande do Sul e quais as principais, digamos, surpresas, dessa pesquisa?
Arthur de Faria - Poizé. Isso foi tudo meio ao acaso, que é como acontecem as grandes coisas da vida. Eu comecei a escrever umas coisas sobre a história do rock do bairro portoalegrense do IAPI em 1989, quando trabalhava no jornal de bairro ZH Zona Norte, da Zero Hora. E comecei a pegar gosto pela coisa. Em 92, a prefeitura de Porto Alegre começou uma série de fascículos e discos sobre a história da música da cidade e era do conselho e escrevi o primeiro, sobre a história de 1927 pra trás. E aí comecei a gostar e nunca mais parei. Esse livro que a gente falou é uma versão muito incompleta das coisas que eu fui atrás e tal. E não saiu em versão comercial. Mas eu sigo reescrevendo. Já tem 500 páginas e mais de 350 entrevistados, além de centenas de livros, jornais, revistas etc. Te confesso que nos últimos dois anos tive muito trabalho com música e o livro pouco andou. Mas eu jurei pra mim retomar esse ano. O texto que tem aqui no Senhor F já é um dos capítulos do livro novo, em sua redação quase final. Quanto a descobertas, muitas coisas curiosas. Eu não sou pesquisador de verdade, né? Sou mais jornalista, como te disse. Leio, entrevisto pessoas e cruzo dados. Mas a história que mais me apaixona é a da Casa A Electrica, que, entre 1913 e 1924 lançou os Discos Gaúcho e foi a segunda gravadora da América Latina. A história do cara que bolou tudo e da própria casa é tão afudê que vai virar filme. Um longa meio ficcionado a ser dirigido pelo Guffo, o Gustavo Fogaça, cineasta e músico daqui.
Senhor F - O que andas fazendo, produzindo neste momento? Algum novo disco à vista? Turnês pelo país ou pelos vizinhos latinos? Shows em Porto Alegre?
Arthur de Faria - Pois olha, acho que já falei quase tudo... Do seu Conjunto, tem o festival em Barcelona esse, em setembro, que vai ser do caralho, tem mais uma chance de mostrar o nosso show com Orquestra de Cordas - que se chama ‘Meu Conjunto Tem Concerto’ e a gente tem feito com as mais diversas orquestras daqui -, dessa vez com a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro, no último domingo de julho. E, em setembro, a gente vai pra São Paulo, pra mostrar o show instrumental, no CPFL, em Campinas, e algum Sesc na capital. Fora isso, tamos pensando no primeiro DVD, que deve ser todo instrumental e, possivelmente, com convidados da Argentina, Uruguai e do centro do País. E, pra esquentar, a gente deve fazer uma temporada de um show por mês, durante alguns meses, na Livraria Cultura daqui de Porto Alegre. Isso é curioso: a gente acabou virando um grupo de repertório, com quatro shows diferentes prontos pro que der e vier. Esse instrumental, o com orquestra, um com a Cida Moreira e o de canções, do’ Música pra Bater Pezinho’. Dois já viraram disco. Falta o instrumental e o com a maravilhosa da Cida. Já euzinho de Faria, sem banda, tenho umas três trilhas pra cinema e teatro pra este ano, uns discos pra produzir e o recém-estreado show ‘A Mulher de Oslo’, de uma cantora daqui chamada Vanessa Lomgoni, que tem direção minha e eu toco, porque chapei na baixinha. E no repertório: canções dos quatro cantos do mundo, todas contando estórias de mulheres. Desde a Alanis até coisas do Bregovic, minhas, de compositores daqui como o Nico Nicolaiewski, do Uruguai, da Argentina, de Portugal, da Espanha. E o show não é bem um show, é mais um espetáculo, sem cortes. Um luxo!
Senhor F - A pergunta que não quer calar: o que mais gostas de ouvir, e o que andas ouvindo, neste momento?
Arthur de Faria - Bã, Fernando. Que pergunta boa de responder. Eu tive em fevereiro e março mochilando pelo leste europeu com a patroa e, claro, trouxe zilhões desses objetos em franca decadência chamados CDs. E, meu, tem muita coisa boa por lá, mas os búlgaros e os turcos são foda. Não comprei nada de pop ou rock porque não me interessava, mas comprei muita coisa das misturas de música dos caras com jazz, rock, pop ou até eletrônica, além de música mais, digamos, "tradicional". Mas põe aspas nisso. Na Bulgária os caras tem ritmos folclóricos em 15/16, 9/8, 11/8, um negócio de dar um nó no pobre ouvinte. Eu recomendaria, com ênfase. Da República Tcheca, uma cantora, compositora (de música erudita e popular) e violinista chamada Iva Bittóva, que tem inclusive um CD INTEIRO só com ela cantando e se acompanhando ao VIOLINO! que, eu juro, não é nada nada nada chato. É um deslumbre. Da Hungria, tem dois grupos que eu já conhecia e que são foda: o Muszikás, que tem a cantora Marta Sebástyen, que é mais roots, muito violino e tal, mas é bárbaro. E o Besh O Drom que é MAGNÍFICO! Pauleeeeira, com guitarra, baixo, bateria e mais muitos instrumentos pra nós exóticos. Fazem uma música com pegada bem roqueira em cima de temas tradicionais de folclore de todos os países dos Balkans, mas principalmente coisas mais ciganas. Mas não os ciganos de violino, os ciganos de fanfarra de sopros, que nem os que tocam com o Bregovic. Da Bulgária, tem um percussionista genial, chamado Stoyan Yankoulov, que tem um disco dele em dupla com uma cantora que é um estouro. E tem o Ivo Papasov, clarinetista famoso no circuito de world music européia, que tem uma banda assombrosa e tocando coisas muito energéticas com uma virtuose absurda e uma rítmica de fundir a cabeça. Também da Bulgária, o Thedosii Spassov, que toca uma porra de uma flauta dificílima, chamada Kaval - comprei uma e o Adolfo (fagotista do Seu Conjunto) já tá tocando - e que tem muitos discos, todos muito bons - vários com o Yankoulov na bateria e percussão. E o Spassov e o Yankoulov tocam na The Balkan Horses Orquestra, que é uma mistura de música dos Bálcans, rock progressivo e jazz. Creia, bárbara.Tudo isso é fácil de achar pra baixar. E nem chegamos nos turcos. Mas aí deixa pra outra hora, rererererrerere.