Caixa (re) 'descobre' banda Harry, de Santos, para as novas gerações
* Fernando Rosa

Uma das bandas mais importantes, mas ainda pouco reconhecida, do rock brasileiro dos anos oitenta e noventa acaba de lançar uma caixa com praticamente toda a sua obra. A caixa batizada de ‘Boxing Harry Taxidermy’, lançada pelo selo Fiber Records, contém três CDs e um completo encarte com todas as informações sobre a banda e cada uma das músicas. Nascida em Santos, de uma banda punk chamada Yardrats, o Harry misturou como poucos influências de Discharge a Kraftwerk, de Gong a Exploited, de Beatles a Ministry, de Clash a música clássica, como diz um de seus integrantes, Roberto Verta, em entrevista exclusiva para Senhor F.

Senhor F - Como foi a trajetória de uma banda (ou de alguns de seus integrantes) de orientação punk até chegar a sonoridade da Harry? Quais as principais influências/referências da banda naquele momento?

Roberto Verta - Todos nós tivemos bandas de influência punk antes do Harry, que foi uma conseqüência de outra banda, os Yardrats. Penso que o início dos anos 80 foi muito rico musicalmente, com a transição entre a energia e simplicidade do punk até a diversificação que aconteceu logo no início da década. Nossa trajetória individual e como banda passou necessariamente pelo punk e em seguida pela absorção de tudo o que escutamos em nossas vidas e aí vai de Discharge a Kraftwerk, de Gong a Exploited, de Beatles a Ministry, de Clash a música clássica (!!!). Sim, um de nós é musicalmente letrado (o Richard Kraus Johnsson).

Senhor F - Com foi a história da banda na cena independente paulista? Como chegaram ao selo Wop Bob, de René Ferri? Qual a repercussão dos primeiros discos?

Roberto Verta - Aos poucos fomos nos inserindo na cena, apesar de que nunca nos adaptarmos totalmente porque vivíamos em Santos e a cena lá era totalmente misturada. O Hansen, por exemplo, foi guitarrista do Volcano, lendária banda de metal da baixada Santista, além de tocar no Harry. Apesar disso, todos com alguma freqüência iámos à loja do René e do Antônio. Quando o Hansen soube que a Wop Bop estava tornando-se um selo, os procurou com uma fita, pois havia uma identificação com a diversidade da loja. Pra nossa sorte, o René, que já havia contratado algumas bandas, gostou da primeira demo (na qual eu ainda não toco) com duas músicas. O primeiro disco, o EP conhecido como 'Caos' teve uma repercussão bem razoável para um disco de estréia com alguma execução na então iniciante 89 FM de São Paulo, na querida Fluminense, na Ipanema de Porto Alegre e também em BH.

Senhor F - O som da Harry não ficou de forma alguma datado, ao contrário de boa parte da produção do rock dos anos oitenta e noventa. Ouvindo hoje, continua extremamente atual, revolucionário... Qual o segredo disso? A banda estava, a exemplo de outros grupos, à frente de seu tempo?

Roberto Verta - Não sei se há algum segredo ou explicação para a nossa música além de intuição e sinceridade. A banda, pelo fato de que todos nós somos compositores é o resultado de nossas influências musicais, conflitos e personalidades. Nunca tivemos a preocupação de estarmos à frente do nosso tempo, porém sempre quisemos que nossa música tivesse personalidade e que durasse um pouco mais do que os 15 minutos que são tão passageiros.

Senhor F - Vocês tinham algum processo de produção mais elaborado, estúdios, equipamentos, ou era o conceito mesmo que faz a diferença sonora? Onde a banda gravava seus discos? Quem produzia?

Roberto Verta - Era tudo feito utilizando-se a máxima punk "do it yourself", ou seja, o importante era termos o controle da situação. Obviamente a Wop Bop nos deu um bom estúdio pra começar, porém no segundo disco, o 'Fairy Tales', descobrimos que funcionávamos muito melhor em um estúdio pequeno e de atmosfera caseira como o Big Bang, onde podíamos ter a calma de chegar ao resultado pretendido. A partir do inicio dos anos 90 passei a ter um estúdio próprio e nossas últimas gravações foram feitas em uma unidade móvel desse meu estúdio. Produzi todos os nossos discos.

Senhor F - Como era vista uma banda de Santos ocupando espaço na cena paulistana? Rolava algum tipo de dificuldade, além da distância? Quais eram as principais parcerias da banda na época?

Roberto Verta - Acho que dentro da cena, sempre fomos considerados meio esquisitões. Porém penso que não havia grandes diferenças porque as dificuldades eram comuns a todas as bandas. De qualquer forma tínhamos um bom relacionamento com bandas como o Violeta de Outono, DeFalla, Fellini, Cólera e Akira S, entre outras.

Senhor F - Como você avalia hoje a trajetória da banda, sob a ótica da caixa 'Boxing Harry Taxidermy'? A caixa, de certa forma, (re)dimensiona a importância da banda na história do rock nacional? O lançamento, de alguma maneira, tinha essa intenção?

Roberto Verta - Uma das intenções da caixa é preservar nossos discos pela ótica da banda, uma vez que eles nunca haviam sido relançados em CD com a nossa participação. No caso do 'Fairy Tales' só soubemos que ia sair na semana do lançamento. Então a caixa traz os CDs originais remasterizados pelo Classic Master, que é o melhor estúdio de remasterização do Brasil, informações sobre os discos, um monte de músicas inéditas, versões alternativas, demos, fotos inéditas, enfim, a história da banda em uma embalagem bacana. Resumindo, pra quem não conhece, é uma bela maneira de nos conhecer. Pra quem conhece, é uma bela maneira de ter uma discografia quase que completa. Só quem pode redimensionar a importância da banda na história do rock nacional são os fãs e a imprensa. Queremos apenas que as pessoas ouçam essas velhas canções e que elas lhes tragam algum prazer ou significado.

Senhor F - Com o fim da banda, o que vocês passaram a fazer em termos de música? E atualmente, você anda ocupado com o quê?

Roberto Verta - Todos nós ainda lidamos de uma maneira ou de outra com música. Hansen é também DJ de E.B.M e tem seu projeto paralelo, o Bad Cock; o César di Giácomo tem um banda chamada Avalanche, cujos outros dois membros, o Marreco e o Lee, estão envolvidos na nova formação do Harry também e tocam com freqüência em Santos; o Rick tem inúmeros projetos em Itatiba (SP), onde vive. Eu trabalho profissionalmente com música em uma gravadora. Além disso, tenho meu estúdio onde faço meus projetos e procuro ajudar ajudar bandas novas como o Moptop.

Senhor F - O que você acha da cena atual? Da luta da meninada para gravar, divulgar seu trabalho, arranjar lugar para tocar? Qual a diferença, se existe, de seu tempo na Harry?

Roberto Verta - As diferenças são apenas duas, porém bem grandes: Pro Tools e Internet! O Pro Tools, assim como outros programas como Ableton Live, Cakewalk, Logic, etc, tornaram o processo de gravação de um disco bem mais acessível. Isso faz uma diferença enorme, porque traz uma oferta de música independente de qualidade muito maior. Por outro lado, a Internet faz naturalmente uma seleção do que há de melhor e inspira garotos a saírem de seus quartos e fazerem música. Dentro dessa cena é claro que existem coisas legais e outras não. Certas coisas nunca vão mudar.

Senhor F - Em termos nacionais e internacionais, o que tem chamado a sua atenção? Algum gênero musical, alguma banda, alguma iniciativa no terreno musical?

Roberto Verta - Apesar de todas as novidades tecnológicas, o rock e a música eletrônica passam por uma fase de busca no passado pra se reinventar. Então acho a cena electro interessante e algumas bandas como o Bloc Party, Arctic Monkeys, The Bravery (que me lembra coisas que ouvíamos nos anos 80), The Kills, Ash, Raveonettes, Kasabian, Magic Numbers, todos com boas canções. Penso nos Doves como uma banda de primeira linha, bem acima da média. No formato mais "casca grossa", o Rammstein, que além de tudo faz de seus shows ao vivo um espetáculo. Heil!

> Boxing Harry Txidermy
www.fiberonline.com.br

* Fernando Rosa é editor de Senhor F.

 
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