Em 24/10/55, nasce o rock brasileiro com a gravação de 'Rock Around The Clock'
* Fernando Rosa

24 de outubro 1955. Nora Ney, cantora de jazz e samba-canção, acompanhada do Sexteto Continental, grava ‘Rock Around The Clock’, em inglês, o primeiro registro de um rock gravado no Brasil. A gravação foi lançada em novembro em um 78rpm (selo 17-217), da gravadora Continental, com a música ‘Ciuminho Grande’ do outro lado. Em uma semana o disco chegou ao primeiro lugar da parada de sucessos a Revista do Rádio.

“A surpresa, outro dia, no programa de César de Alencar (na Rádio Nacional) foi Nora Ney cantando em inglês uma melodia que estava sendo lançada num filme”, registrou a Revista do Rádio, em sua edição de novembro de 1955. A tal “melodia” era o 78rpm com ‘Rock Around The Clock’, gravado às pressas no final de outubro, em cima da versão original de Bill Haley & His Comets, trilha sonora do filme ‘Sementes de Violência’.

Assim, nascia o primeiro rock gravado no Brasil, pela voz de Nora Ney, cantora de samba-canção de grande sucesso na época. Então com 33 anos, Nora Ney cumpria o papel de preencher o espaço ainda não ocupado por artistas jovens, que só foram entrar em cena em 1958, com a primeira gravação dos irmãos paulistanos Tony e Celly Campello – ‘Forgive Me’/’Handsome Boy’.

A ausência de artistas jovens também levou outras gravadoras a apelarem para artistas populares para atender à demanda pelo novo ritmo. O cantor de jazz e samba-canção Cauby Peixoto, então um dos mais populares do país, foi convocado para gravar ‘Rock and Roll em Copacabana’, de autoria de Miguel Gustavo, o primeiro rock com letra em português. Já Betinho, filho de Josué de Barros, descobridor de Carmem Miranda, gravou primeiro rock com guitarra – ‘Enrolando o Rock’.

A escolha de Nora Ney para interpretar ‘Rock Around The Clock’, além de suas qualidades vocais, foi o fato dela ter familiaridade com a língua inglesa e com a música americana, as mesmas razões que levaram até Cauby Peixoto e Betinho. Com a música ‘Ciuminho’ no “lado b”, ‘Rock Around The Clock’ foi o único registro de rock da cantora que, em 1961, ironicamente, gravou ‘Cansei de Rock’, encerrando sua aventura passageira pelo nascente gênero musical.

Em dezembro do mesmo ano de 1955, tentando correr atrás do prejuízo, a gravadora Odeon lançou uma versão em português de ‘Rock Around The Clock’, de autoria de Júlio Nagib, que virou ‘Ronda das Horas’, interpretada pela cantora Heleninha Silveira. A Columbia também apostou na música e produziu outra versão com o acordeonista Frontera, também lançada em novembro.

Em 1957, uma versão instrumental com o pianista Waldir Calmon, incluída em seu disco ‘Chá Dançante #3’, faria grande sucesso junto ao público adulto. Nos anos setenta, o próprio Bill Haley, em mais uma de suas turnês pelo Brasil – a primeira foi em abril de 1958 - regravou a música com arranjo misturando samba e rock and roll, acompanhado do conjunto paulista Lee Jackson.

O estouro de ‘Rock Around The Clock’ que detonou o surgimento do rock and roll no país aconteceu, como em todo o mundo, por meio do filme ‘Sementes de Violência’ (‘Blackboard Jungle’ no original). Incluída na trilha da fita, a música tocava apenas na abertura, durante a apresentação dos créditos, mas o suficiente para agitar os jovens espectadores e produzir grandes confusões nas salas de cinema.

“Um dia, em 1956, matei a aula e entrei no cinema Excelsior, na praça da Sé, em Salvador. Começou um filme, que eu não sei qual é o nome, no qual Bill Haley abria cantando ‘Rock Around the Clock’. Nossa! Eu chorei naquela cadeira, estremeci, era uma coisa igual à ‘Fonte da Nação’ que eu vi em Irará, quando era criança”, disse Tom Zé em entrevista ao jornal República.

Rock Around The Clock, a história

Gravada por Bill Haley & His Comets em 12 de abril de 1954 e lançada no mesmo ano, ‘Rock Around The Clock’ foi inicialmente um fracasso comercial, vendendo somente cerca de 75 mil cópias nos Estados Unidos. Apenas um ano depois de seu lançamento, com a inclusão na trilha sonora do filme ‘Blackboard Jungle’, é que a música explodiu em vendas não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

A gravação de Haley era, na verdade, um “cover” do original registrado um pouco antes pelo cantor ítalo-americano Sonny Dae & His Knights - em 20 de março de 1954, pelo selo Arcade. Escrita por Max C. Freedman, um nova-iorquino, então com 63 anos, a música também não nasceu como um tema de rock and roll.

Ainda mais interessante, é que foi lançada como um discreto “lado b” de ‘Thirteen Woman’, um tema pós-guerra, a verdadeira aposta da gravadora. E mais, inicialmente tinha outro nome: ‘Dance Around The Clock’, trocado na última hora. A música, no entanto, estava marcada por confluências históricas que, talvez, sejam a principal razão de seu sucesso.

Uma espécie de “jump-boogie” no original de Sonny Dae, a versão de Haley para ‘Rock Around The Clock’ produzida por Milt Gabler, então executivo da Decca, tem, pelo menos, três músicas de “referência” em sua construção. Segundo ele, boa parte do sucesso da música devia-se ao fato de ser uma “versão” de um antigo blues chamado ‘My Daddy Rocks Me (With One Steady Roll)’ - gravado originalmente por Trixie Smith, em 1922.

Outra música ligada à gênese de “Rock Around The Clock” é o country-boogie ‘Move It On Over’, de Hank Williams, de 1947, extremamente parecida com o mega-hit de Haley. A terceira influência direta é o tema instrumental ‘Syncopated Clock’, de Leroy Anderson (1945), da qual ‘Rock Around The Clock’, seria uma espécie de variação “rock and roll” do mesmo tema.

> Leia mais: as 25 músicas da primeira fase do rock nacional.

* Fernando Rosa é editor de Senhor F.

 
54  53  52  51  50  49  48  47  46  45  44  43  42    41 40 39 38