Afastada dos modismos, OAEOZ aposta em canções maduras e verdadeiras
* Fernando Rosa

  A canção ‘Dizem’ é uma das músicas mais bonitas escritas nesses últimos e, justiça seja feita, criativos anos do rock independente nacional. De autoria de Ivan Santos e Rubens K, ela é uma das 12 faixas do belo álbum ‘Às Vezes Céu’, da banda OAEOZ, de Curitiba. Mas, ‘Dizem’ é apenas uma sugestão para a entrada no universo sonoro de uma das mais legais e sinceras bandas atuais. O álbum traz muitas outras peças dignas da expressão “canção”, na melhor definição de Nick Hornby, caso da também emocionante ‘Meia Volta’.

‘Às Vezes Céu’ é o primeiro álbum inteiramente gravado em estúdio, e quinto registro desde que a banda surgiu, em 1997. Desde lá, OEOAZ construiu uma carreira sólida, afastada dos modismos, fiel à sua inclinação por canções maduras, reflexivas e verdadeiras. Esse objetivo é inteiramente alcançado com ‘Às Vezes Céu’, que eleva a banda a um novo patamar dentro da cena musical brasileira. Além dos limites da cena independente, OEOAZ avançou para novos horizontes musicais, mais amplos que o universo rock and roll.

Em texturas que misturam rock clássico, Neil Young, toques de Fellini, algo de música regional e até mesmo erudita, a banda curitibana vai contando a saga dos dias de seus contemporâneos. As letras sintonizadas com os climas apaixonados e apaixonantes das canções falam de sentimentos de perdas e conquistas, da vontade de se fazer o que quiser, de viver o presente sem sentir medo. O instrumental anda em plena sintonia com a poesia, com destaque para as nervosas guitarras e as intervenções de piano.

Atualmente, a banda é composta por Ivan Santos (vocal e composição), André Ramiro (guitarra), Carlos Zubek (guitarra), Hamilton de Lócco (bateria) e Rodrigo Montanari (baixo e voz). O disco foi lançado pelo selo De Inverno Records, dirigido por Ivan e pela jornalista Adriane Perin, responsável pelo festival De Inverno e por diversos lançamentos locais. Além da qualidade musical, o álbum ganhou uma apresentação eficiente e bonita, com capa mostrando o Pico do Paraná (em foto de André Ramiro) e encarte contendo as letras e ficha técnica.

Entrevista

Senhor F - Como vocês se sentem atualmente dentro do atual cenário da música independente nacional? O álbum, conceitualmente e musicalmente mais, digamos, adulto, poderia expressar um novo patamar da produção musical alternativa, refletindo um amadurecimento da cena e, mesmo, do público?

Ivan Santos - Acho que uma das coisas mais importantes que aconteceram na produção musical independente brasileira nos últimos anos foi a proliferação da diversidade com qualidade. Bandas como Pipodélica (SC), Hurtmold (SP), Mopho (AL), Blanched (RS), Deus e o Diabo (RS), La Carne (SP), Casino (RJ), Phonopop (DF) – pra ficar só em algumas que tocaram com a gente por aqui – mesmo tendo influências e estilos completamente diferentes, tem em comum a busca por uma identidade musical própria, autoral. Cada uma dessas bandas e muitas outras buscaram seus próprios caminhos, independente de padrões ou fórmulas, seja do mainstream ou do underground. O resultado é que hoje, não se pode dizer que haja na produção independente do Brasil um estilo dominante, o que na minha visão, é ótimo. O OAEOZ, modestamente, se insere nesse contexto. A gente sempre teve em mente fazer música com total liberdade, sem se preocupar se aquilo seria ou não bem aceito entre esse ou aquele segmento do público e da mídia. E como isso significava andar com as próprias pernas desde o ínicio a gente procurou se virar sozinho. Se não tem gravadora, a gente cria um selo e produz os próprios discos. Se não tem onde tocar, nós organizamos um festival – o Rock de Inverno. E por aí vai. E assim foi também com o nosso novo CD – ‘As Vezes Céu’ – produzido por nós mesmos com a ajuda de amigos, e que  reflete o amadurecimento desse trabalho, tanto de produção – é com certeza nosso disco mais bem acabado – como em termos de composição.

Senhor F - Diante do quadro de dificuldades da cena independente atual, como vocês estão se virando para divulgar o álbum? Como são as coisas em Curitiba; o disco toca no rádio? E os espaços para tocar, considerando que o som de vocês extropola a definição de rock, em seu sentido mais clássico?

Ivan Santos - As dificuldades são as comuns enfrentadas pela maioria dos artistas independentes – ainda mais quando você se propõe a fazer algo diferente, desconectado dos hypes e modinhas em voga. Mas como eu disse, a gente nunca esperou nada de ninguém. Estamos divulgando o disco por conta própria, e vamos tentar fechar acordo de distribuição com distribuidoras independentes. Tocar no rádio em Curitiba, só em programas segmentados, como o ‘Geração Pedreira’, da rádio 96 FM, que é apresentado pela Mariele Loyola (Cores D Flores). Recentemente também surgiu uma rádio nova a Lumpen FM, que é dirigida pelo Ciro Ridal, o mesmo cara que fazia o ‘Todos os caminhos do rock’ na Rádio Educativa, e está se propondo a também tocar bandas da cidade. Sobre espaços pra tocar, existem e até em número razoável, mas a maioria é precária. E os que têm um pouco melhor de estrutura muitas vezes não abrem pra propostas mais autorais, como é o nosso caso. Como sempre, partimos nós mesmos para a produção dos shows. Vamos fazer o lançamento do CD no teatro Paiol, mantido pela prefeitura, em 28 de maio.

Senhor F - Como vocês vêem a cena independente nacional atualmente, em termos de divulgação, especialmente? Dentro desse quadro, quais os planos da banda para Curitiba e para o país? Alguma idéia de turnê por outros estados para divulgar o trabalho?

Ivan Santos - Nossa prioridade hoje é divulgar o trabalho fora. Tanto que no próximo dia 1º de abril estamos indo a São Paulo, para dois shows lá, ao lado do Íris, outra banda daqui. Vamos tocar no Centro Cultural de São Paulo, às 19 horas, e depois, às 23 horas, no OUTS, na rua Augusta, junto com as bandas La Carne e Fud. E a idéia é na seqüência fazer o maior número de shows possíveis em outros estados, aproveitando os contatos e amizades que a gente já fez ao longo dos anos. Em novembro, tivemos a oportunidade de tocar no quarto festival Demosul, em Londrina, junto com outras 30 bandas, entre elas Relespública e Mundo Livre.

Senhor F - Por fim, uma vez que você é um dos que tocam o selo De Inverno e também o festival, qual a previsão para o evento neste 2005? Já tem data para a realização? Bandas convidadas?

Ivan Santos - No momento estamos tentando conseguir patrocínio para realizar o sexto Rock de Inverno. Temos um projeto de lei de incentivo federal aprovado há dois anos, mas nunca conseguimos captar recursos através dele. Por enquanto, porém, não tivemos nenhum retorno positivo mais concreto e o fato, infelizmente, é que se não rolar patrocínio, o festival corre o risco de não acontecer este ano, pois não temos mais como tirar dinheiro do bolso pra fazê-lo, como aconteceu até hoje. A princípio a idéia é fazer entre julho e agosto, em local ainda a definir. A escalação é a última coisa que a gente define.  

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Ouça a música 'Dizem' na Parada Senhor F.

De Inverno Records

* Fernando Rosa é editor de Senhor F.