Sapatos Bicolores, um grande disco, shows incendiários e poderosos ‘hits’
* Fernando Rosa

A banda Sapatos Bicolores é uma espécie de fenômeno local que, de certa forma, reproduz situação vivida por outras bandas em diferentes cenas. A exemplo de grupos como Volver, no Recife, ou The Feitos, no Rio de Janeiro, a banda Sapatos Bicolores surgiu na contramão da sonoridade, digamos, mais característica. Bastante diferente do que vinha sendo feito em Brasília, e da tradição da cidade, o grupo incendiou o rock local com seu som encharcado de rock and roll, Jovem Guarda e rockabilly. Em pouco tempo, conquistava lugar de destaque ao lado de bandas como Prot(o), Bois de Gerião e Phonopop, entre outras.

O trio formado por André Vasquez (guitarra), Caio (bateria) e PC (baixo), esquentou as máquinas em shows pela cidade, e também Goiânia, para afirmar-se definitivamente com o lançamento do primeiro EP. Nele, estavam alguns dos principais 'hits' da banda, como ‘De Carona’, ‘À Cobrar’ e, o mais vibrante deles, ‘Garota-Cor-Fogo’, incluido na coletânea ‘Clássicos da Noite Senhor F’. Com o EP, os Sapatos, como são conhecidos, ganharam o mundo, com 'Garota ...' tocando na programação da rádio Brasil 2000, de São Paulo, elogios rasgados de Kid Vinil (leia aqui texto dele sobre o disco) e shows rolando pelo Sudeste e Sul do país.

Agora, depois de conquistar um público cativo, que dança e canta as músicas nos shows, e se apresentar em eventos "top" como o Vivo Open Air, o trio está novamente na estrada para divulgar o disco de estréia. Produzido por Gustavo Dreher, ‘Clube Quente dos Sapatos Bicolores’ é uma dos melhores e mais importantes obras da cena independente atual. No disco, a banda aprofunda a linha evolutiva do rock nacional, que tem em suas origens Baby Santiago, Renato e Seus Blue Caps, Magazine, Ultraje a Rigor e Graforréia Xilarmônica. Ou seja, timbres e sonoridades particulares, além das influências da moda, e texto direto, irônico e inteligente.

Além dessas qualidades, Sapatos Bicolores ainda conta com um dos melhores guitarristas da cena atual, André Vasquez, também o principal compositor e cantor. É com ele que Senhor F conversou via email, para saber do disco, de como foi gravado, dos planos da banda e das suas influências, entre outras coisas. Em longa, mas esclarecedora entrevista, Vasquez fala da repercussão do disco, da íntima relação da banda com seu público e do que andam pensando sobre a cena atual e do que fazer para avançar a cena independente.

A entrevista

Senhor F - Vocês acabam de lançar o primeiro disco, batizado de 'Clube Quente dos Sapatos Bicolores'. Como está sendo a divulgação na região, e como tem sido a receptividade do público? Quais os planos futuros? Clipe? MTV? Turnê?

André Vasquez - A divulgação na Região Centro-Oeste está sendo bastante boa, acredito eu. Em Brasília e Goiânia, o nosso disco foi bem recebido pela crítica especializada, com resenhas tri elogiosas, nossos shows estão enchendo cada vez mais, com um público que canta as músicas, compra cd, camiseta, enfim, um público muito querido e empolgante, que vai pedir autógrafo. O Sapatos sempre teve esse lance de muito contato com o público, diferentemente de alguns artistas, o público parece que fica à vontade pra vir trocar uma idéia depois do show, manda e-mail, é muito massa.

Senhor F - A gente fez excelentes imagens no nosso show de lançamento e estamos finalizando o primeiro clipe com estas imagens, da música ‘Garota Cor-de-Fogo’.

André Vasquez - Daqui a duas semanas a gente está baixando pra São Paulo pra gravar o Banda Antes na MTV, e ainda em jun/jul estamos negociando shows em São Paulo, BH, Salvador e uma mini-turnê no RS. Quando fechar, a gente põe no site.

Senhor F - O som de vocês, em se tratando de uma banda de Brasília, "destoa" um pouco da sonoridade local, ou mesmo da cena de Goiânia, sede do selo de você, a Monstro Discos. Ao que se atribui essa diferença, se é que ela existe, de fato? Como definiriam o som de vocês? Sapatos Bicolores faz "rock gaúcho"? Quais as influências do trio?

André Vasquez - Cara, o lance de composição dos Sapatos é mesmo bem original, ainda mais quando contextualizado geograficamente. A banda surgiu a partir de composições minhas (e aí entra toda uma questão de influências pessoais) feitas num determinado momento da minha vida. Assim, músicas como ‘Que se Dani’, ‘De Carona’ e ‘Bolinhas Brancas’ refletiam bastante uma urgência de produção como forma de expressão pessoal. Quando comecei a tocá-las efetivamente (primeiro com o Gabriel e o Marcel em três shows, e logo depois com o Caio e o PC), as canções foram sendo muito mais elaboradas. Aí os arranjos finais sempre foram feitos a três e mais, sempre que alguém aparecia com uma idéia não-óbvia, ganhava a discussão. Pra falar dos Sapatos, eu tenho que dizer primeiro que é, sem dúvida, a melhor banda na qual já toquei. Eu não defino nosso som como rock gaúcho, nem como rockabilly, nem nada. É rock e pronto. Mas existe um fator que nos afasta de copiar essa ou aquela sonoridade: tanto o PC quanto o Caio tem influências MUITO diferentes das minhas. Além do fato de terem tocado muito metal, os dois têm um approach extremamente original nas canções Bicolores, já que o Caio ouviu muito pouca coisa de Rockabilly, Beatles, Jovem Guarda, Hendrix... e o PC nunca tinha tocado baixo antes na vida! Felizmente os dois são músicos excelentes, tocam pra cacete, sabem tudo, super instintivos, o lance sempre fica fácil pra mim. E, o que ajuda muito na "originalidade" é a liberdade que temos para apitar no que o outro tá fazendo. Isso porque queremos fazer um som que preste e porque somos muito próximos pessoalmente. Depois de tanta viagem junto a relação extrapola a música, sabemos o que o outro quer dizer. Finalizando, sobre ser diferentes das bandas "vizinhas", é inevitável, uma vez que nascemos completamente ‘outsiders’ do circuito e, no começo, dialogamos muito pouco com outras bandas daqui.

Senhor F - Onde, como e quem produziu o disco vocês? Como foi transitar da "demo", que teve uma grande repercussão, para o disco?

André Vasquez - O ‘CQSB’ foi gravado entre julho e setembro de 2003, no estúdio Daybreak, pelo Gustavo Dreher. Antes da gravação, há de se ressaltar, tivemos várias reuniões com o Gustavo, entre ensaios e audições. Entramos no estúdio com muitos instrumentos, idéias de arranjos não testados em shows e realmente dispostos a fazer um disco que apresentasse soluções novas, o que já era uma proposta completamente diferente da "demo", cuja intenção fora de registrar o repertório sendo tocado ao vivo por uma banda que tinha quatro meses de vida. Foi igual a trepar pela primeira vez: excitante, nervoso e...gostoso! E isso que não comemos o Gustavo! Eu estudei canto antes das gravações e me esforcei muito para encontrar timbres excelentes e adequados a cada tipo de situação com o equipamento que a gente tinha.

Senhor F - Como rolou o lance de timbres, por exemplo?

André Vasquez - Achei foda gravar as guitarras porque nunca tinha enfrentado essa situação, de estar produzindo um registro definitivo para músicas que gosto tanto e buscando com tanto afinco encontrar soluções e timbres ducaralho. Usamos três amplis valvulados em linha, quatro guitarras, delay de rolo e alguns efeitos que eu nunca tinha experimentado nem em show, como o Big Muff e o Tremolo Stereo. Em uma sessão específica, usamos também toucas e óculos de natação. O Caio usou umas quatro, cinco caixas diferentes, pratos e chimbaus variados e foi o primeiro a gravar...o que é foda sempre. O PC, por sua vez, também penou com a tarefa de gravar sozinho e com fone, se ouvindo direto no fone, já que os baixos foram gravados através de um Avalon e depois passando o sinal direto pro Pro Tools. Ele também usou vários baixos diferentes. Os vocais foram gravados em quatro dias, quando chegou o Neummann do Estúdio Dreher. E foi a parte mais rápida, com certeza. Durante toda a gravação, o Gustavo nos dirigiu com uma liberdade que fora imposta pela própria banda. Já tínhamos na cabeça a idéia de que era importante delegar essa função a um produtor que sacasse muito. E ele saca muito. Só chamaríamos para produzir nosso disco alguém que realmente admirássemos. E ficamos 1000% satisfeitos com o trabalho dele. Assim, os momentos de tensão eram BEM alternados com a avacalhação característica...cervejinha no fim das sessões, almoços no Careca, horas de sono...rolaram coisas afudês como as gravações dos backings de ‘Meu Pote’ - no meio de um churras, os gargarejos de um "dente a menos", os músicos da orquestra indo tocar lá em ‘Não Saio do Mar’, o arranjo do Gustavo funcionando após mil modificações, as discussões intermináveis sobre o arranjo de ‘Canção em Si’ com Birck em Brasília! Sensacional!

Senhor F – Onde o disco foi mixado, finalizado?

André Vasquez
- A mixagem foi no Estúdio Dreher lá em Porto Alegre e demoraram muito. A primeira sessão de mix demoraram dez dias, acho eu. Foram dias maravilhosos, muita coisa boa aconteceu naquele período, eu aprendi muito, o Carlo foi lá gravar uns backings...a impressão de que o disco tava ficando pronto! Depois ficamos fazendo recalls nas músicas mais umas três vezes, e ‘Canção em Si’ ainda demorou mais. As soluções de mixagens foram muito discutidas e algumas coisas eram mudadas com relação a timbres e tal... só a guitarra tinha 5 canais (três amplis e duas ambiências)! Demorou pra caramba mesmo e a gente não tinha como lançar mesmo...

Senhor F - Tem alguma participação especial? Quem?

André Vasquez - As participações, além de nós três, foram do Gustavo em alguns backings esporádicos, dos músicos da Orquestra do Teatro Nacional  em ‘Não Saio do Mar’, de um trompetista e um clarinetista lá de Porto Alegre durante as mixagens, as programações de samplers do Marcelo Birck, e uns backing e gritos do Carlo Pianta em ‘Garota Cor-de-Fogo’.

Senhor F - Ouvi, um dia desses, do Marcelo Birck, que a banda Sapatos Bicolores tem um dos textos mais "rock and roll" do país, o que parece evidente nas letras da banda, simples, diretas, desencanadas, mais poeticamentes bem resolvidas. Isso tem alguma alguma escola, repetidas audições de algum autor?

André Vasquez
- Primeiro, vindo do Birck, esse elogio me deixa envaidecido. Cara, admiro muito Tom Jobim e Vinicius de Morais, Beatles, Eddie Cochran, Chuck Berry, Hendrix, Bob Dylan, Roberto Carlos, Cascavelettes, Jupiter, Graforréia, Atonais, Birck, Frank Jorge, Cake... E, claro, também sou muito influênciado pelos filmes que vejo, livros, história em quadrinhos, cultura pop em geral, que consumo muito mais do que deveria. Na real, escrevo minha letras com a abordagem de quem vai escrever um conto, criar uma história, cenário. Também tô sempre buscando compor letras diretas, coloquiais, sem usar artifícios que "poetizam" as letras.  Tipo, imagens batidas e distantes da realidade de "a flor no teu cabelo, o desejo do beija-flor,..." caralho, odeio isso!  E acho imbecil também essa galera que escolhe uma conjugação e manda bala: como "esquecer... viver... entender... comer...você!" É falta de pré-escola. Acho massa ficar procurando a palavra certa, contabilizando as divisões de fonemas, essas paradas. Isso, no final das contas, enriquece a composição. Ou então escolher uma conjugação e fazer disso um efeito, mas não pela necessidade de rimar. Tem uma letra do Tom Jobim, por exemplo, que é sensacional, chama-se ‘Fotografia’. (eu,você,nós dois/sentados nesse bar à meia luz/ o sol já vai caindo e o seu olhar parece acompanhar a cor do mar (....) será que esse bar já vai fechar?) É a imagem clara de uma situação comum, contada de uma maneira impecável. Sabe, é isso que eu procuro escrever... imagens cotidianas com uma forma poética, uma métrica, uma escolha de palavras que possam ter algum valor. Tipo, vou sempre preferir escrever sobre o meu Monza do que sobre um Cadillac. É massa ironizar quem está aqui do lado, não as cafetinas da Moldávia, as quais provavelmente não conhecerei tão cedo. 

Senhor F - Quais são as tuas influências, então, digamos, literárias, musicalmente falando?

André Vasquez - Citaria diretamente letras dos Cascavelettes, como ‘Menstruada’; ou da Graforréia (‘Hare’); ou então do Jupiter (‘Pictures and Paintings’), Atonais (‘Sei Que Vou Chorar’), Roberto Carlos (‘Amanda, Amante’), Frank (‘Esperando a Saudade’)... E curto muito as letras que o Pedro Angel, dos Gramofocas, faz. Beatles, Bob Dylan e Hendrix são foda até de falar qualquer coisa a respeito....absolutamente geniais. Escrever em inglês é uma coisa que ainda vou demorar muito tempo para me arriscar a fazer. E, como disse o Morin, o cara tem que procurar viver, né? Tem muita coisa de experiência pessoal nas minhas letras também. Um dente a menos, por exemplo, escrevi depois que extraí um siso, uma dor ducaralho! A expressão "um dente a menos" não explica muita coisa, então achei dúbia e boa o suficiente para desenvolver o tema. Assim, ser um cara meio instável e apreciador de momentos insanos me ajuda a criar, sem dúvida.

Senhor F - Também falam que André Vasquez é um dos melhores guitarristas da cena independente nacional. Quais são as tuas principais influências? Alguém em especial, daqui e de fora?

André Vasquez - Sério??? Quem te falou? Tá louco... tem tanta gente que toca muito no Brasil... mas valeu! Tive a sorte de estudar com dois músicos e professores sensacionais na adolescência. Primeiro, tive aula com o Carlo Pianta (NR – guitarrista da Graforréia Xilarmônica), entre 93-95, quando era fã de Guns, Pearl Jam, Kiss. Aprendi muito mais do que escalas e técnica; aprendi a ouvir música. Lembro que era muito ruim comparado aos meus colegas e comecei a melhorar quando ele passou a me ensinar bossa nova. Assim estudei muito construção de acorde, composição. Foi demais. Quando eu tinha uns quinze anos eu vi o clipe de ‘Stray Cat Strut’ e enlouqueci. Pedi pro Carlo me indicar alguém que pudesse me ensinar um pouco daquilo e ele me deu o telefone do Márcio Petracco (NR – guitarrista do TNT). Minhas perspectivas sobre rockabilly mudaram muito. Passei a ler todas as Guitar Players, ouvi todos os countrys mais antigos, os blues mais remotos, aprendi banjo, slide... Assim como em relação ao Carlo, nunca poderei retribuir o conhecimento que o Márcio me passou. Nessa época, comprei muito cd porque os cds importados não eram taxados pela Receita Federal, comprei Chuck Berry, Freddie King, Stevie Ray Vaughan, Nitty Gritty Dirt Band, BR5-49, Chet Atkins, Eddie Cochran, Carl Perkins, Danny Gatton... Quando fui para Nashville, tive a oportunidade de ver muitos instrumentos e discos. Comprei algumas raridades que eu tanto queria, como o Elvis Sun Sessions...numa época que não existia Napster, Kazaaa...os acessos eram outros. Cheguei a tocar em bares, passava as tardes tocando guitarra nas lojas mais escrotas e não comprando nada, os donos das lojas queriam me matar... Enfim, daí tiro as minhas influências.

Senhor F – E, atualmente, quem você anda mais ouvindo?

André Vasquez - Hoje em dia, ouço muito muito de Jimi Hendrix, Brian Setzer, John Lennon, George Harrison, Stevie Ray Vaughan, Danny Gatton, Cliff Gallup, Django Reinhardt, Merle Travis, Chet Atkins, Charlie Christian, Freddie King, Rev Horton Heat, Queen of the Stone Age, Weezer, Supergrass, ...é impossível pensar em começar a fazer uma listar justa. Na hora de tocar, acho que acabo vomitando muita coisa de Brian Setzer e rockabilly tipo Scotty Moore, Eddie Cochran, Chuck Berry, Cliff Gallup (pelo tratamento de choque ao qual me submeti na adolescência e um pouco depois) e um desejo de fazer tudo torto e errado, talvez fruto da minha proximidade com o Carlo Pianta, Hendrix e meu gosto por essa atitude mais sem firula de banda grunge, punk, o descompromisso com a técnica, me descontrolo um pouco...principalmente ao vivo. Sei lá, sinceramente, eu queria ser mais disciplinado e estudar mais.

Senhor F - Além de compor, tocar guitarra e compor com a banda você também tem um livro guardado na gaveta. É a biografia da Graforréia Xilarmônica, é isso? Quando e como você escreveu? Algum plano de publicação?

André Vasquez - Escrevi esse livro no fim da faculdade, em 2002. Durante dois anos pesquisei a história da banda e fiz uma análise profunda sobre a obra que a Graforréia produziu e seus aspectos artísticos. O livro fala muito de indústria cultural, análise de discurso, análise do uso de composição gráfica nas coisas que eles faziam, tem muita pesquisa de imagem, biografia mesmo, umas 100 horas de entrevistas com os graforréicos todos mais o Thomas Dreher, o Miranda, o Julio Reny, Petracco, tanta gente...um monte de coisa que eu estudava na época. Olhando em retrospecto, tem muita informação válida lá, afinal de contas são mais de 300 páginas, né? Depois de ter escrito o livro, caí numa ressaca e, com a retomada das atividades da banda, ele encontra-se um tanto quanto desatualizado. Mas é uma idiotice, eu devia dar um gás e publicar. Na real, ando muito ocupado com os Sapatos, compondo material novo e tal, mas se eu tivesse uma possibilidade real de publicação, toparia acabar o projeto de uma vez e torná-lo publicável.

Senhor F - Como você vê, atualmente, as cenas de Brasília e nacional?

André Vasquez - Cara, ser roqueiro no Brasil é igual a jogar bola na África. Talento não falta, mas o cenário é cruel. Assim, dá pra ver com otimismo algumas coisas, e desilusão outras tantas. Por um lado, tem uma tonelada de bandas boas em Brasília e no Brasil como Retrofoguetes, Deceivers, Detetives, Laranja Freak, The Feitos, Faichecleres, Volver, Gramofocas, Cachorro Grande, Cadabra, Ludov... que somadas a iniciativas de uma galera profi como a Monstro, a Inker, quem faz o CPF, a Fan Music, o Senhor F (e aqui não há espaço para puxa-saquismo), o pessoal que organiza vários festivais e algumas poucas emissoras de rádio (Brasil 2000, Ipanema) e uma galera da Internet pelo país, fazem a coisa acontecer num âmbito restrito, mas que funciona. Do outro lado, ainda temos que conviver com uma cultura amadora, uma visão social de que o músico faz show só porque gosta, porque é doidão e usa droga barata, o que leva muita gente a não pôr grana pra viabilizar shows, discos; donos de bares que usam as bandas pra faturar com o público de rock, a falta de parceria de uma parte da iniciativa privada (às vezes resultante da má preparação dos prospectores, outras não).

Senhor F – E, diante desse quadro, como se comportar, o que fazer? Para onde avançar?

André Vasquez - Apesar do rock não estar sendo encarado como um ritmo moderno para grande parte da população e da mídia, acho que tem muita coisa acontecendo e, se tivermos mais canais de mídia para atingir a população, a produção musical local e nacional com certeza poderia viabilizar um mercado para se trabalhar. Enquanto isso não acontece, vai todo mundo trabalhando muito para transformar a produção num lance mais atrativo: seja com uma produção cenográfica, iluminação e sonorização mais profissional num show, passando pela própria gravação (que já se encontra num nível bom), apresentação do produto... tudo pode ser melhorado para cativar um público ainda desinformado. E isso tudo acontecendo apesar de já conseguirmos colocar nossos discos em prateleiras de lojas espalhadas por todo o Brasil e nas maiores lojas virtuais do país. A desgraça ainda é que as rádios e as tevês ainda funcionam com o jabá...e jabá é uma merda, é uma barreira intransponíveis pra quem não tem um sponsor. Na real, além da sua própria ignorância, é resultado da pouca fé que os dirigentes das empresas fonográficas põe nas pessoas. Em suma, temos eventos grandiosos, bandas mais do que excelentes e um alcance pequeno na população brasileira, o que torna a atividade de roqueiro difícil pra caralho. É um cenário marginal mesmo. Se os membros da Graforréia fosse jogadores de futebol, por exemplo, e não fossem colorados, com certeza estariam jogando na Europa - em final de carreira, é verdade, mas cheios da grana e ovacionados pelas multidões mundo afora! E de vez em quando aparece um Los Hermanos da vida e a gente fica empolgado, né? Ainda que eu suspeite um pouco desse tratamento da mídia porque muita gente desmarginalizou o grupo, começou a tratar como intelectualóide, como MPB...o que é uma besteira. O ‘Bloco’ é um baita disco de rock em última análise também. Mas não adianta reclamar. O lance é fazer altos shows pra financiar o próximo disco e ir compondo cada vez mais criteriosamente; quem sabe daqui a uns anos os Sapatos Bicolores não possam olhar pra trás e ver uma produção numerosa e de relevância, além de momentos excelentes vividos em shows, viagens, palas nos sete mares ao lado das pessoas que importam nesse mundo. Se continuar rolando assim, já tá valendo.

* Fernando Rosa é editor de Senhor F.