Ivinho, herói da guitarra, à frente do Ave Sangria, em 'Paêbirú' e Montreux
* Fernando Rosa
Um dos maiores guitarristas da história do rock brasileiro ainda está por ter o devido reconhecimento. Trata-se de Ivson Wanderley, ou Ivinho, guitarrista da banda pernambucana Ave Sangria. O seu lugar na história do rock nacional é ao lado de Lanny Gordin, Sérgio Dias (Mutantes), Mimi Lessa (Liverpoll) e Paulo Raphael (aliás, o outro guitarrista do Ave Sangria), especialmente.

Ivinho, como todo mundo naquela época, começou a carreira em conjuntos de Jovem Guarda, no caso, Os Selvagens – junto com Almir Oliveira - para, em seguida, ingressar no universo da psicodelia. No início dos anos setenta, após a lendária I Feira Experimental de Música de Fazenda Nova, ele passou a integrar o grupo Tamarineira Village. O pré-Ave Sangria contava também Laílson, Almir Oliveira, Lula Martins, Disraeli, Bira, Aparício ‘Meu Amor’, Rafles, Tadeu e Ivson Wanderley.

No Ave Sangria, ainda com o nome de Ivson Wanderley, o guitarrista somou a sua genialidade ao parceiro Paulo Raphael (guitarra base, sintetizador, violão, vocal), e mais Marco Polo (vocais), Almir (baixo), Israel Semente (bateria) e Juliano (percussão). Nascida em Recife, Ave Sangria foi uma das bandas mais expressivas do movimento nordestino que invadiu a música jovem brasileira na segunda metade dos anos setenta. Nela, brilhavam as duas guitarras, particularmente a de Ivinho.

Além do trabalho com a Ave Sangria, Ivinho é um dos guitarristas presentes do raro, clássico e genial álbum ‘Paêbirú’, assinado por Lula Côrtes & Zé Ramalho, mas produção coletiva. No disco, Ivinho divide as guitarras novamente com o parceiro Paulo Raphael e com o, então, desconhecido, Robertinho de Recife, que depois desenvolveu carreira solo. Junto com Lula, Zé Ramalho e os três guitarristas, ainda participam do disco Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé da Flauta e Israel Semente.

Com o fim do Ave Sangria, que lançou apenasum ótimo disco, sem que, na época, tenha conquistado reconhecimento além dos limites regionais, Ivinho retornou ao seu universo local, acompanhando seus ex-companheiros Alceu Valença e Zé Ramalho, já então em carreira solo.

Em 1978, ele ressurge em pleno palco do Festival Internacional de Jazz de Montreux, na Suiça, surpreendentemente empunhando uma viola de 12 cordas e levando o público presente ao delírio. O show foi registrado em disco e lançado no Brasil, com excelente repercussão junto aos ouvintes de MPB e também à juventude ligada em rock and roll.

Inacreditavelmente ainda inédito em CD, o disco registra a impressionante apresentação de Ivinho que, com sua técnica e ‘feeling’ particular transforma sonoridades regionais em peças totalmente jazísticas/psicodélicas. Na época, as únicas referências de guitarristas brasileiros modernos no exterior eram Pepeu e Armandinho, o que contribuiu para o impacto causado pela presença de Ivinho.

A carreira de Ivinho, no entanto, devido a problemas pessoais, acabou não deslanchando como prometia, privando a música brasileira de um de seus maiores gênios do instrumento, seja a guitarra ou a viola. Atualmente, ele vive em Recife, onde, nos últimos tempos, realizou shows ocasionais e participações em discos, como no recente ‘Beco do Barato', um tributo à sua geração.

* Fernando Rosa é editor de Senhor F.