Os discos mais importantes da década pelo portal Senhor F
* Fernando Rosa

A cena independente nacional desta década pagou o preço da transição entre o advento das novas formas de produção e divulgação por meio da internet e a ruína da indústria fonográfica tradicional. No entanto, antes de perder-se em lamúrias, artistas e bandas foram à luta e deram início à construção de novas bases para a economia da música no país. O resultado é uma inédita plataforma de festivais organizada na ABRAFIN, selos como Monstro Discos, Senhor F Discos e midsummer madness records, entre outros, e uma rede de casas de shows.

O portal Senhor F acompanhou o desenvolvimento dessa cena desde sua criação em 1998, quando as coisas engatinhavam, ainda de forma centralizada em algumas capitais. Nesta década, centenas de demos, singles, eps e discos passaram pelo portal, muitos deles ganhando visibilidade a partir das matérias e resenhas em nossas páginas. Apesar das dificuldades, o acesso às novas tecnologias abriu as portas para produções profissionais e, ao mesmo tempo, livres do padrão incolor do mainstream, que destruiu muitas bandas.

Sem a pretensão de abranger o conjunto da produção musical jovem da década, nossa lista busca identificar aqueles discos, dentre os independentes, que mais aprofundaram a linha do rock nacional. Assim como as listas anteriores – internacional e ibero-americana -, os 25 títulos correspondem a um mix de gosto pessoal e coletivo, expressão de nossa linha editorial e importância histórica. Alguns clássicos como O Bloco do Eu Sozinho, outros obscuros como Os Pistoleiros e Prozak, ou surpreendentes como a novata Macaco Bong, mas todos presentes na memória emocional de nossa redação.

O Bloco do Eu Sozinho, dos cariocas Los Hermanos, é unanimidade, pela qualidade musical e poética, assim como pela postura de rompimento com o esquema formal da indústria e a defesa da arte e da criação antes de tudo. O disco homônimo dos alagoanos Mopho é um clássico de todos os tempos do rock nacional, espremido naqueles anos 2000 de indefinição entre o velho e novo. O disco da gaúcha Superguidis, com seu pop-sujo, guitarras excepcionais e poesia cotidiana, marcou a entrada em cena da juventude emergente das periferias nacionais, impulsionadas pelo acesso à informação.

O álbum Positivamente Mórbido, dos curitibanos Pelebrói Não Sei, é um achado do início da década, com seu surpreendente mix de punk rock e extrema qualidade poética, com letras sinceras e coladas no cotidiano da juventude da época. Os cuiabanos Macaco Bong, com seu disco Artista Igual Pedreiro, com inventidade e despojamento, afirmaram definitivamente o novo espírito “do it yourself” independente. Já o gaúcho Frank Jorge com seu Carteira Nacional de Apaixonado deu início a construção de uma sólida carreira solo, além da herança da Graforréia Xilarmônica.

A também gaúcha Cachorro Grande com o disco homônimo de estréia definiu boa parte da sonoridade do início da década, com hits explosivos em disco e palco, que transforam a banda em um dos destaques do rock nacional atual. A goiana Violins, com o quarto discos, A Redenção dos Corpos, reforçou a linguagem “indie” com uma obra marcada pela radicalidade musical, poética e existencial. A acreana Los Porongas, também com disco homônimo, introduziu na cena do Norte no caldeirão nacional, com grande qualidade instrumental e poética.

A brasiliense Prot(o), por sua vez, com seu auto-intitulado disco de estréia, demarcou um novo terreno para o rock local, à base de guitarras eletrizantes e letras tão estranhas quanto geniais. Também de Brasília, Beto Só com o segundo disco Dias Mais Tranquilos confirmou suas qualidades autorais em canções de extrema sensibilidade e emoção. A gaúcha Bidê ou Balde, com Se o Sexo é que Importa, só o Rock é sobre Amor!, também demarcou o terreno fértil do início da década, em hits divertidos e dançantes.

Após um bem recebido disco de estréia, a banda Volver lançou o segundo disco, Acima da Chuva, contendo uma coleção de canções que transformou o quarteto no grupo mais importante da nova geração do rock recifense e do país. O surpreendente disco dos brasilienses Suite Super Luxo, El Toro!, apesar de ilhado em sua cidade, é um dos grandes discos de sua geração e do rock independente nacional. Autoramas com Stress, Depressão e Síndrome de Pânico, destacando a guitarra de Gabriel Thomaz, também foi um dos marcos da nova cena independente nacional.

A cavaleiro do single Semáforo, os cuiabanos Vanguart lançaram um dos discos mais importantes da nova geração do rock independente brasileiro da segunda metade da década. Já os brasilienses Móveis Coloniais de Acaju firmaram-se na cena nacional com o disco de estréia, Idem, que catapultou a banda para todos os palcos do país. De Chapecó, Santa Catarina, os já lendários Repolho consolidaram sua carreira com o segundo disco, Vol 2, unindo ironia, inteligência e diversão, com diversas participações especiais.

A também brasiliense Phonopop com seu disco de estréia Já Não Há Tempo introduziu na cena independente a melodia clássica em canções com a urgência do power pop. A carioca Astromato, com o belo Melodias de Uma Estrela Falsa, lançado em 2000, fez a ponte entre o “indie’ dos anos noventa e a nova era independente. Tão obscuro quanto surpreendente, Reciclando Almas dos gaúchos Prozak, com ótimas guitarras e sonoridade outsider para os padrões do rock gaúcho tradicional, é um dos grandes discos “perdidos” da cena independente nacional.

Um Compêndio Lírico de Escárnio e Dor, dos goianos Réu e Condenado, é outra obra rara do rock independente desta década, com seu humor cortante e fino. Outro disco quase “perdido”, é o disco homônimo dos catarinenses Os Pistoleiros, ainda hoje a mais interessante experiência do folk rock nacional moderno. A paulista Os Gianoukas Papoulas, com Panorâmica, entregou para a cena independente uma bela coleção de canções refinadas. Por fim, a carioca Supercordas com Seres Vivos ao Redor resgatou a psicodelia nacional com qualidade autoral e instrumental.

01.Los Hermanos - O Bloco do Eu Sozinho (Abril Music/2001)

02.Mopho – Mopho (Baratos Afins/2000)

03.Superguidis - Superguidis (Senhor F Discos/2006)

04.Pelebrói Não Sei – Positivamente Mórbido (Barulho Records/2000)

05.Macaco Bong - Artista Igual Pedreiro (Monstro Discos/Fora do Eixo/Trama Virtual/2008)

06.Frank Jorge - Carteira Nacional de Apaixonado (Barulhinho/2000)

07.Cachorro Grande - Cachorro Grande (Stop Records/2000)

08.Los Porongas - Los Porongas (Senhor F Discos/2007)

09.Prot(o) – Prot(o) (Monstro Discos/2003)

10.Bidê ou Balde – Se o Sexo é que Importa, só o Rock é sobre Amor! (Antidoto/Abril Music/2000)

11.Beto Só - Dias Mais Tranquilos (Senhor F Discos/2008)

12.Vanguart – Vanguart (OutraCoisa/2007)

13.Violins – A Redenção dos Corpos (Monstro Discos/2008)

14.Autoramas – Stress, Depressão e Síndrome de Pânico (Astronauta/2000)

15.Volver - Acima da Chuva (Senhor F/2008)

16.Os Pistoleiros - Os Pistoleiros (Low Tech Recs/2000)

17.Móveis Coloniais de Acaju – Idem (Independente/2007)

18.Repolho – Repolho 2 (Independente/2001)

19.Réu & Condenado – Um Compêndio Lírico de Escárnio e Dor (OutraCoisa/2004)

20.Phonopop – Já Não Há Tempo (T-Rec/2005)

21.Prozak – Reciclando Almas (Independente/2002)

22.Astromato - Melodias de uma estrela falsa (midssummer madness records/2000)

23.Suite Super Luxo – El Toro! (Protons/2005)

24.Os Gianoukas Papoulas – Panorâmica (Independente/Virtual/2006)

25.Supercordas - Seres Verdes ao Redor (Trombador/2006)

Top 25 Ibero-americanos

O mundo da música ibero-americana ainda é um mistério para a maioria dos ouvintes, mesmo com o advento da internet, que facilitou o acesso à produção mundial. Ainda vivemos sob a ditadura do “padrão Miami”, fruto da antiga relação colonial, que entope os ouvidos nacionais de lixo industrial, afastando as pessoas da verdadeira produção cultural dos diversos países. Com o Governo Lula, o Brasil começou a alterar essa relação, em todos os terrenos, impondo-se de maneira soberana e independente, o que se espera também promova a integração regional.

A presente lista é resultado de um processo iniciado pelo portal Senhor F desde sua origem, em 1998, pautado pela divulgação da música da região, com sucesso entre seus leitores. Hoje, com o programa Senhor F Sem Fronteira na Rádio Câmara, que ultrapassou 100 edições, e com a realização do festival El Mapa de Todos, ampliamos nossa plataforma de conexão com a música da maioria dos países. Já não trazemoso em nossas páginas apenas a história e os clássicos, como no início de Senhor F, mas também as novas bandas surgidas dentro do atual padrão de produção & divulgação.

Evidentemente, como qualquer lista, a seleção traz a nossa visão particular, ainda com ótica brasileira, da música produzida em vários países da América do Sul, Espanha, México e Portugal. Entre os 25 destacados, estão artistas consagrados como a mexicana Café Tacuba, revelações nacionais como a argentina El Mato a Un Policia Motorizado, e outsiders independentes como o português Azevedo Silva. Esperamos que a lista contribua para, pelo menos, introduzir os ouvintes nesse rico mundo, mais criativo, mais colorido e mais feliz do que a maioria da produção dos países centrais.

01.Babasonicos - Jessico (Argentina)
02.El Mato a Un Policia Motorizado - Um Millon de Euros (+ Navidad de Reserva & Dia de Los Muertos)(Argentina)
03.Turbopotamos - ST (Peru)
04.Instituto Mexicano del Sonido - Piñata (México)
05.Sr. Chinarro – Ronroneando (Espanha)
06.Los Bunkers - La Culpa (Chile)
07.Lisandro Aristimuño - Azules Turquesas (Argentina)
08.Los Planetas - La Leyenda del Espacio (Espanha)
09.Buenos Muchachos - Amanecer Búho (Uruguai)
10.Bareto - Cumbia (Peru)
11.Flopa, Manza, Minimal - ST (Argentina)
12.Gabo Ferro - Boca Arriba (Argentina)
13.San Pascualito Rey - Deshabitado (México)
14.Nacho Vegas - Desaparezca Aqui (Espanha)
15.Puerto Candelaria - Llegó la Banda (Colômbia)
16.Julieta Venegas - Sí (México)
17.Bomba Estéreo - Vol. 1 (Colômbia)
18.Cafe Tacuba - Cuatro Caminos (México)
19.Libido - Lo Último Que Hable Ayer (Peru)
20.Azevedo Silva - Tartaruga
21.Amaral - Estrella de Mar (Espanha)
22.Gepe - Gepinto (Chile)
23.Dead Combo - Vol. 1 (Portugal)
24.Andres Calamaro - La Lengua Popular (Argentina)
25.Los Amigos Invisibles - Super Pop Venezuela (Venezuela)

Top 25 Internacional

Ao contrário de outras décadas, a lista de melhores dos 00-09, não traz praticamente nenhum disco muito acima da média coletiva, ao contrário, é marcada por uma certa homogeneidade. A exceção, levando em conta sua importância como definidor de sonoridade da década, é o disco de estréia “Is This It”, dos novaiorquinos The Strokes, lançado no início dos anos 2000. Arctic Monkeys, com “Whatever People Say I Am, That's What” I'm Not’, também pode ser incluido nessa pequena seleção de destaques além da média da produção dessa geração.

Nossa lista ainda traz alguns títulos que dificilmente serão vistos em outras seleções, como o único disco Lift To Experience, “The Texas-Jerusalen Crossroads”, um clássico apesar de pouco conhecido. Outros discos também devem aparecer somente por aqui, como “From a Basement on the Hill”, do cantor e compositor Elliott Smith, “Earth Quake Glue”, penúltimo álbum do Guided By Voices, e ainda o novo disco do Pearl Jam, “Backspacer”. Ou seja, como são todas as listas, a que segue abaixo também reflete o mix de gosto pessoal e coletivo, com nossa visão particular sobre o rock dessa década.

01.Strokes - Is This It
02.Arctic Monkeys - Whatever People Say I Am, That's What I'm Not
03.Radiohead - Kid A
04.The Walkmen - Everyone Who Pretended to Like Me Is Gone
05.Spoon - Girls Can Tell
06.The Delgados - The Great Eastern
07.At The Drive In – Relationship Of Command
08.PJ Harvey – Stories From the City, Stories From the Sea
09.Grandaddy - The Sophtware Slump
10.The Coral - The Invisible Invasion
11.Interpol - Turn on the Bright Lights
12.The Shins - Wincing The Night Way
13.Arcade Fire - Funeral
14.Elliott Smith - From a Basement on the Hill
15.The Flaming Lips – Yoshimi Battles The Pink Robots
16.Lift To Experience - The Texas-Jerusalen Crossroads
17.Sigur Rós - Ágætis Byrjun
18.Supergrass - Life On Other Planets
19.Nick Cave and The Bad Seeds - No More Shall We Part
20.Stephen Malkmus - Stephen Malkmus
21.Antony & The Johnsons - I Am Bird Now
22.Guided By Voices - Earth Quake Glue
23.Pearl Jam - Backspacer
24.The Queens of the Stone Age - Songs for the Deaf
25.Wilco - Yankee Hotel Foxtrot

- Baixe aqui a coletânea independente nacional

- Baixe também a coletânea ibero-americana

* Fernando Rosa é editor do portal Senhor F (www.senhorf.com.br), apresentador do programa Senhor F Sem Fronteira (www.camara.gov.br/radio) e produtor do festival El Mapa de Todos (www.myspace.com/festivalelmapadetodos).

 
 
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Edição 54
Balanço da década: os melhores discos independentes nacionais, ibero-americanos e internacionais

Em matéria especial, a seleção do portal Senhor F, que destaca Los Hermanos, Babasónicos (foto) e Strokes. Também destaque como personagem da década, o gaúcho Wander Wildner. O Top 25 nacional e ibero-americano está disponível para baixar.

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O 'Mapa de Casas de Shows da América do Sul' é o novo projeto especial do portal Senhor F. O mapa organiza endereços das casas independentes das pricipais cidades sul-americanas.