Música Etílica: Treparemos ao som de quem?
* Ramon Ribeiro

Certo dia eu estava andando na rua, claudicante como sempre, quando avistei uma senhora que vinha caminhando vagarosa na direção contrária. Na plenitude dos seus 60 anos e mais alguns esquecidos, a coroca desfilava naquela velocidade de cágado, desviando da multidão que quase a atropelava. Foi aí que a idosa, que já não mexia as cadeiras do jeito que o Vinny gostava, perdeu o equilíbrio durante o ziguezaguear urbano e começou a pender para o lado esquerdo até desabar no solo, para a surpresa dos transeuntes.

Enquanto algumas almas caridosas se recuperavam do susto e iniciavam o processo de acolhimento da velhaca, eu não pude resistir aos meus instintos musicais mais primitivos e sob os olhares incrédulos da multidão, comecei a saltitar com as duas mãos espalmadas a sacudir no ar, cantando em voz alta o maravilhoso tema de abertura dos Trapalhões! Trá lá lá lá lá lááááá lá!

Sim, foi uma cena ridícula. No entanto, não perdi a espontaneidade e segui firme na cantoria. E tive que me afastar rapidamente do local, pois as antipáticas pessoas que ajudavam a coroa já estavam se enervando com minha atitude pouco cristã.

Foi nesse episódio que constatei que pra todas as ocasiões há uma trilha sonora perfeita, que comporia harmoniosamente as cenas de nossas vidas, independente delas serem dantescas, heróicas, patéticas, catastróficas, etc...

Certa vez, namorei (acredite!). Nós dois éramos apaixonados, tudo parecia impecável naquele relacionamento. Tínhamos gostos parecidos, mas na hora do ato sexual havia uma incompatibilidade de pensamento que era crucial. Ambos, fanáticos por música, queriam botar a vitrola para sacudir num som que climatizasse a orgia que iria começar. O namoro desandou bem aí...

Ela era antiquada, sem sal, sem imaginação. Excitava-se com o básico mesmo. Qualquer "Je t'aime... moi non plus" a deixava ouriçada. Barry White, então? Nem se fala. Os graves que o cara emitia a faziam tremelicar incessantemente. Isso quando ela não exigia um "Like a Virgin", tentando me enganar que era noviça no assunto.

No começo, fui cavalheiro e aturei o mau gosto sexo-musical da minha companheira. Com o tempo, decidi meter o bedelho no set list do nosso amor e peguei pesado. Arrisquei numa noite um Arrigo Barnabé, mas o maravilhoso descompasso de suas composições acabou nos projetando para fora da cama. Na queda, ela sofreu uma lesão na coluna que nos fez ficar um mês sem sexo. Quando ela se restabeleceu, passou a torcer o nariz para todas as minhas opções. Foram vetos impiedosos e autoritários contra Kraftwerk, The Residents, Frank Zappa, Zumbi do Mato e Fantômas. Esses ela não quis nem tentar. Reclamou que faltava sensibilidade nas minhas escolhas. Foi aí que veio a derrocada amorosa.

Disse-lhe que escolheria uma música, somente se ela topasse tentar durante um tempo sem reclamar. Ela aceitou receosa. Confabulei durante horas sobre qual canção ou disco romântico seria suscetível para manter-me ereto no embate carnal. Liguei para ela e marquei na minha casa. Ao chegar, olhei em seus olhos e falei: "Purple Rain". Seu choque foi tamanho que ela emudeceu. Para piorar as coisas, afirmei que havia alugado "Purple Rain, o filme" porque achava que a experiência audiovisual teria impactos mais profundos, nos fazendo atingir orgasmos contundentes. Ela começou a avermelhar e suas têmporas saltaram. Não proferiu nenhuma palavra. Sua decepção foi tamanha que me deu as costas e nunca mais retornou uma ligação minha. Até hoje não compreendo como e porque o artista que já foi conhecido como Prince poderia causar tanta repugnância numa pessoa...

De qualquer forma, não me considero dos mais exóticos em matéria de amor e música. Tenho família no interior de São Paulo e um parente meu tem uma fazenda. Certa vez, após algumas refinadas doses de pinga, ele revelou que também tinha o costume de ouvir canções ao fazer amor. Esperei que ele dissesse que gostava de algum disco sertanejo, mas ele me surpreendeu: "Gosto de transar ouvindo Pet Sounds do Beach Boys".

Aprovei seu gosto musical, pois é um belíssimo disco. Mas zoofilia é sacanagem demais pra mim.

* Ramon Ribeiro faz stand-up comedy além de berrar e compor no The Feitos.

 
 
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Edição 54
Balanço da década: os melhores discos independentes nacionais, ibero-americanos e internacionais

Em matéria especial, a seleção do portal Senhor F, que destaca Los Hermanos, Babasónicos (foto) e Strokes. Também destaque como personagem da década, o gaúcho Wander Wildner. O Top 25 nacional e ibero-americano está disponível para baixar.

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