* Carlos Pinduca
Num tempo não muito distante, em que o acesso à internet ainda
engatinhava, o modelo de império musical comandado pelas grandes gravadoras dava seus primeiros sinais de declínio. A despeito de as majors e seus artistas populares ainda gerarem receitas consideráveis, a experiência exitosa dos selos independentes - principalmente, na Inglaterra e nos Estados Unidos - desde os anos 80, mostrava que bandas boas não se acham (ou compram?) em qualquer esquina. De vez em quando, algumas dessas bandas e gravadoras menores cometiam a ousadia de furar as barreiras mercadológicas impostas pelas majors, estourando nas rádios e caindo no gosto do grande público.
Para não tomar rasteiras dos nanicos, as grandes gravadoras, além de utilizarem o velho recurso de contratar as tais bandas em ascensão, acabaram encontrando uma outra maneira de resolver o problema: passaram a se aliar aos seus pretensos adversários, incorporando - e, às vezes, até criando – selos alternativos. A iniciativa se mostrava boa para os dois lados: os selos pequenos ganhavam com a estrutura de distribuição das majors, enquanto as grandes gravadoras adquiriam qualidade artística e uma espécie de laboratório para seus futuros projetos. O estouro do Nirvana em 91, revelado pela pequena gravadora Sub Pop (e depois contratado pela major Geffen), trouxe glamour e respeito às bandas alternativas e fez com que as grandes gravadoras, mais do que nunca, buscassem uma maneira de se acomodarem a esse novo universo underground.
O Banguela Records, atrelado à major Warner, foi talvez o selo brasileiro com mais visibilidade nos anos 90. Apesar de existiram outros bastante relevantes no mesmo período - como o Chaos e o Superdemo, da Sony, e o Plug, da BMG - o Banguela conseguiu imprimir sua marca de uma forma diferenciada, muito por conta da notoriedade trazida pelos proprietários do selo, os Titãs, e, principalmente, pelo perfil visionário e bom de marketing do seu diretor artístico, o jornalista e produtor musical Carlos Eduardo Miranda.
Eu tive a sorte de participar um pouco dessa história, por meio do Maskavo Roots, uma das primeiras bandas contratadas pelo Banguela. Meus primeiros contatos com o que viria a ser o selo foram feitos em maio ou junho de 1993, quando o Fred, baterista do Raimundos, levou a 1ª demo do Maskavo para a redação da revista Bizz, onde trabalhava o Miranda, à época bastante dedicado à divulgação de grupos novos. Foi o próprio Fred quem nos informou que o Miranda havia gostado da nossa demo e, desta forma, nos incentivou a entrar em contato com o jornalista da Bizz. Nesta época, o selo ainda nem existia e o meu intuito era mais negociar uma nota sobre o Maskavo na Bizz, o que realmente acabou rolando naquele segundo semestre de 1993.
Passei, então, a falar por telefone com o Miranda de vez em quando. Além de atuar como jornalista, ele também dava algumas dicas para as bandas iniciantes: - Tenta arrumar um show aqui, fala com o produtor “x” acolá. Lembro até de um dia em que o Miranda me passou o telefone de dois “caras legais” para trocar idéias em Recife: Fred 04 e Chico Science. Acabei nunca ligando para eles, mas, outro dia, fazendo uma faxina na casa dos meus pais, achei engraçado me deparar com o papelzinho onde tinham os números anotados. Bem, mas voltando propriamente ao selo, recordo-me de, em uma dessas ligações para o Miranda, ele me dizer que tava rolando uma idéia de montar uma gravadora com os Titãs, para eu ficar ligado naquilo, pois o Maskavo era uma das bandas cotadas para entrar naquele barco.
Dito e feito. Acho que um pouco depois da primeira edição do seminal festival independente Junta Tribo, ocorrido em agosto de 1993, em Campinas, a Folha de São Paulo publicou uma matéria com os Titãs, na qual eles falavam sobre a criação do Banguela Records, selo cujo nome, se não me engano, havia sido inspirado na música (e título do disco) Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas. A foto que estampava a matéria era do Raimundos, que, mesmo sem ter disco lançado, já era apontado com a grande revelação do rock brasileiro naquele período, ao lado de Chico Science & Nação Zumbi. Se o quarteto de forró-core brasiliense era nome certo dentro do Banguela, as outras quatro bandas que comporiam o cast do selo ainda não estavam definidas: havia uma certa disputa entre um grupo maior de umas sete ou oito bandas, entre elas, o Maskavo.
Apesar de, do alto do meu pessimismo e baixa auto-estima, eu ter certeza absoluta de que o Maskavo não passaria nessa peneira, recebi no final do ano de 1993 um telefonema do Miranda, dizendo que havíamos sido selecionados para o cast do selo, ao lado de mundo livre s/a (PE), Little Quail and the Mad Birds (DF), Graforréia Xilarmônica (RS) e os já certos Raimundos (DF). A idéia, segundo o Miranda, era gravar os Raimundos em janeiro de 1994, no estúdio Be Bop, em São Paulo, e, em março, o mundo livre e o Maskavo ao mesmo tempo, cada um em sua cidade de origem. Em determinado momento, houve uma mudança de planos, com o Little Quail passando à nossa frente, pois já os membros estavam morando em São Paulo, e, depois, o Kleiderman, projeto paralelo dos “patrões” Branco Mello e Sérgio Britto. A gravação do Maskavo, portanto, foi adiada para o segundo semestre de 1994, o que, num primeiro momento, nos deixou bastante ansiosos.
Para controlar a ansiedade e sabermos um pouco mais do que estava rolando, além de falarmos por telefone quase toda semana (com as secretárias Lara e Renata), passamos a visitar esporadicamente a sede do Banguela, no próprio estúdio Be Bop, no bairro de Pinheiros, quando íamos fazer show em São Paulo. Em uma dessas visitas, tivemos a oportunidade de escutar a mixagem do álbum Samba Esquema Noise, do mundo livre s/a. Lembro de ficar impressionado com a ousadia e doideira da música Terra Escura, que trazia um sampler ao contrário de um jingle de uma marca de molho de tomate. Neste ponto, era comum encontrar membros das outras bandas na sede do selo também, que acabava servindo como QG para os artistas do cast. Além dos nossos colegas brasilienses do Raimundos e do Little Quail, tivemos bastante contato com o pessoal do mundo livre, pois, além da citada visita à mixagem deles, durante a nossa gravação foram os pernambucanos que estavam lançando o seu disco em São Paulo. Com os gaúchos do Graforréia, acabamos tendo pouco contato, pois, assim como a gente, eles continuaram morando em seu estado de origem - além de terem optado por gravar o disco de estréia da banda, Coisa de Louco II, no Rio Grande do Sul.
Uma das características do Banguela era a extrema informalidade como as coisas eram tocadas, o que, por muitas vezes, acabava descambando para o lado da desorganização, mesmo. Nós, do Maskavo, por exemplo, assinamos o nosso contrato numa filial do McDonalds em Ipanema (RJ), levado pelo Fred, baterista do Raimundos. Além disso, dava para ver, tanto nas nossas visitas quanto na gravação do nosso disco, que as leis da administração não eram tratadas de forma muito ortodoxa por ali. O lado positivo era a ótima estrutura de gravação oferecida para as bandas: um ótimo estúdio (Be Bop), com excelente técnico (Beto Machado) e produtores tarimbados (Miranda e, às vezes, um Titã). Além disso, a experiência e os contatos jornalísticos do Miranda faziam com que os discos tivessem um amplo espaço na mídia. Ou seja, não havia esquema melhor para uma banda iniciante naquele período.
Quanto aos Titãs, alguns apareciam mais no estúdio do que outros: lembro de muitas visitas do Branco Mello a nossa gravação, para encontrar o seu amigo Nando Reis, um dos produtores do nosso disco. Eles também costumavam emprestar equipamentos para as gravações (guitarras, baixo, bateria, violão, amplificadores) e até faziam participações nos discos - Nando Reis tocou viola no disco dos Raimundos, Branco Mello e Sérgio Britto fizeram backing no disco do Maskavo e até a atriz Malu Mader, esposa de Toni Belotto, cantou na faixa Musa da Ilha Grande, do disco do mundo livre. Os Titãs ainda davam espaço para as bandas do selo abrirem os seus shows: cheguei a assistir a um show de abertura dos Raimundos, na boate brasiliense Zoom, na turnê do álbum Titanomaquia. Nós, do Maskavo, chegamos a abrir um show para os Titãs, gratuito, no Vale do Anhagabaú, mas tomamos pedrada da platéia depois de tocarmos um “sambinha” (trecho da nossa música “Quinta”).
Um aspecto interessante se refere aos bastidores do selo. Lembro de, durante um jantar na gravação do nosso disco, o Miranda comentar chateado o fato de ter perdido o Planet Hemp para o selo Superdemo (Sony), tocado pela produtora Elza Coen. Pelo que entendi, a banda de D2 e Cia. estava negociando o lançamento de seu primeiro álbum com o Banguela, mas a demora no fechamento de um acordo somado ao recebimento de uma boa proposta da Sony fizeram a banda carioca cair fora. Hoje, olhando para trás, dá para ver que, de fato, o selo dos Titãs estava perdendo uma espécie de “mina de ouro” naquele momento.
O primeiro disco do Maskavo Roots, gravado em outubro e novembro de 1994, acabou sendo lançado apenas em março de 1995. Acho que o do Graforréia Xilarmônica saiu um pouco depois, ainda no primeiro semestre do mesmo ano, fechando o ciclo das primeiras cinco bandas contratadas pelo selo. Depois disso, o Banguela realizou outros lançamentos, como a boa estréia dos campinenses do Língua Chula, os primeiros álbuns dos brasilienses do Pravda e dos paulistanos do Psycho Drops, a coletânea de bandas curitibanas Alface e uma fita cassete dos paulistas do Party Up. Mas essa fase eu já não acompanhei tão de perto.
O engraçado é que o fim do Banguela, de certa forma, parece estar associado ao Maskavo Roots. Mais ou menos na época do lançamento do nosso disco, os Titãs voltaram a ser agenciados pelo mega empresário Manoel Poladian, famoso pelos “sucessos” de RPM, Rita Lee, Elis Regina, Jorge Benjor e dos próprios Titãs, entre outros. Por incentivo dos diretores do selo (Miranda e o norte-americano Brian Buttler) e dos próprios Titãs, acabamos negociando e assinando contrato com o Poladian, no dia em que abrimos o show para o Jorge Benjor no Ginásio do Ibirapuera. Parecia uma jogada de mestre: éramos a banda mais pop do selo e estávamos indo para as mãos de Midas do mega empresário Manoel Poladian, o que tinha tudo para nos fazer estourar e, por sua vez, trazer recursos para a gente e para o próprio selo. No entanto, alguma coisa deu errado naquele processo e o tiro saiu pela culatra: pelo que sei, o advogado do Poladian teve acesso aos contratos do Banguela (com a Warner e com as bandas) e, achando toda a estrutura jurídica e administrativa deveras amadora, considerou que aquilo poderia trazer risco financeiro para os Titãs. Daí em diante, na minha visão da história, só vi as coisas degringolando para o selo e para a própria carreira do Maskavo Roots.
Pelo que acompanhei posteriormente, já a distância, depois de sair do Maskavo, vi o Banguela se transformando em Excelente Discos (nesta nova etapa, filiado à Abril Music) e lançando discos legais, como o primeiro do Acabou La Tequila e o segundo do mundo livre, e coisas que eu considero de gosto mais duvidoso, como Virgulóides e Maria do Relento. Quanto às cinco bandas originais do Banguela, com o fim do selo, cada uma foi tomando o seu rumo: os Raimundos, estouradíssimos, passaram a integrar o cast da Warner; o mundo livre continuou a parceria com o Miranda na Excelente Discos; o Little Quail foi para a Virgin; o Maskavo foi para o selo Chaos, da Sony, e a Graforréia, pelo que sei, lançou seu segundo disco, Chapinhas de Ouro, de forma independente.
Apesar dos pesares, minhas lembranças daqueles tempos são as melhores possíveis: dos cartões amarelo (advertência), vermelho (sai do estúdio e volta mais tarde) e PRETO (proibido de entrar no estúdio o dia inteiro) dados pelo Miranda durante a nossa gravação até a zona no ônibus que levou os artistas do selo para a primeira edição do Video Music Brasil, da MTV, em 1995, o que ficou foi a sensação de ter participado de algo original e importante para um período de consolidação e, ao mesmo tempo, de mudança de comportamento do rock brasileiro.
* Carlos Pinduca é músico e jornalista e publica o blog "Pinduca's Blog, onde este texto foi originalmente publicado.