* Andrio Maquenzi
Ok, ok. Listas de discos são muito aguardadas por trazerem consigo um
mix de emoções: desperta encanto, curiosidade e paixão no leitor, ao mesmo tempo uma vontade de estrangular o sujeito que hierarquizou a parada. O fato é que elas são importantes, e queira ou não concordar, vale a pena dar uma espiada, levando sempre em conta que gosto é que nem c*. Neste caso, digamos que a preferência pessoal pelos discos dividiu terreno com o grau de importância que estes tiveram no curso da história do grunge.
Tratemos de aqui expôr as obras em ordem cronológica, verificando
nascimento, vida e morte de um fenômeno socio-cultural que rompeu de vez com a caretice e o cinismo da indústria fonográfica mundial, sob a seguinte conjuntura: tomando por base o fato de que as grandes mídias estavam cada vez mais se internacionalizando, via TV a cabo, estas não apenas testemunharam o lamaçal gordo do underground emergir por sobre as águas-com-açúcar do mainstream, como abraçou com todos os tentáculos a bosta toda - no bom sentido - e a jogou no ventilador.
Foi uma época meteórica de céu e inferno, que culminou com a catapultada do Democrata Bill Clinton (o presidenciável garotão) ao poder máximo da política estadunidense, em 1992. Era o vômito visceral daquela juventude, que cresceu sob a ameaça nuclear e o positivismo furado da era Reagan, e assistiu à eletrizante cobertura midiática da Guerra do Golfo, em tempo real (inédito na história da comunicação) sob o comando de Bush pai. Às bolachas!
1. Sub Pop 200 (coletânea) (1988)
A Cena Existe
Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, guarde esses nomes (ou agradeça a eles, por hoje você conhecer uma porrada de bandas indie). Executivos do selo Sub Pop, esses caras estenderam uma teia de relações via fanzines e fitas-demo (hahahah... eu não usava essa expressão desde 2001, enfim... segue o baile) com outros selos importantes, DJs de rádios universitárias e imprensa alternativa dos EUA e da Europa, no intuito de fazer a coisa andar além-fronteiras de Seattle. No Velho Mundo por exemplo, a coletânea que reunia o mais interessante do caldeirão de bandas do noroeste - entre elas uns três garotos esquisitos de Aberdeen - foi logo difundindo-se como uma peste por entre as entranhas do underground.
O jornalista Everett True, da revista Melody européia, veio a convite da Sub Pop para escrever uma matéria sobre a cena local. Causou um certo burburinho, e levou mais e mais público aos inferninhos de Seattle para beber cerveja e ver shows de rock. Para muitos e para este escriba, foi o chute inicial no balde.
2. Superfuzz Bigmuff (Mudhoney) (1988)
Toque-me, Estou Doente
"Pure grunge! Pure noise! Pure shit!" Assim descreveu Mark Arm sobre sua própria banda, Mr. Epp & The Calculations, num zine local em 1981. O termo designado para conferir algo imundo também serviu para definir o som do Green River e Mudhoney, e logo de tudo o que vinha de Seattle. Ora, este disco não é bem punk, não é bem metal... o que é então? Um apanhado de hits como a provocativa "Touch Me, I'm Sick", "In 'n' Out Of Grace" e demais catarses para dar mosh e encher a cara. O segundo disco mais importante no nascimento do som - e na difusão do termo - grunge.
3. Freedom (Neil Young) (1989)
O padrinho de todos
Aqui a gente percebe um caso de determinismo, conceito filosófico de
Adolfo Sanchez Vasquez sobre a responsabilidade dos nossos atos. Há certos períodos na História, onde o simples acontecer dos fatos define por si só os rumos da sociedade, sem necessariamente haver uma intervenção humana. Uma hora em que tudo converge para que desencadeie algo de maior ou menor proporção histórica.
Neil Young estava atolado até o pescoço, em mares de bebida e pó, lançando um disco estranho atrás do outro (desde rockabilly à tecnopop, passando por jazz e industrial) nos conturbados anos sob a Geffen. Foi quando, num desses tiros para tudo quanto é lado, nasceu o single "Rockin' In The Free World", uma profecia Hard Rock que falava de crianças sem lar, consumismo desenfreado, degradação ambiental e terrorismo. As demais canções desse ótimo álbum, carregadas de microfonia, tensão e pérolas acústicas, lançaram as tendências musicais para o rock alternativo da década seguinte
e jogaram o velho de vez nos braços da molecada.
No mesmo ano saiu um disco tributo a Young, formado por um cast impecável (só para citar alguns): Sonic Youth, Dinosaur Jr. e Pixies, bandas antenadas da costa leste que estavam em confluência com o som de Seattle. Precisa dizer mais?
4. Nevermind (Nirvana) (1991)
Sujeira e flanela para as massas
Quatro acordes que se repetem incessantemente, durante cinco minutos,
apenas embalados por duas dinâmicas: ora calma, ora frenética. Foi o
suficiente para que "Smells Like Teen Spirit" virasse o grande mercado fonográfico mundial de pernas para o ar, e colocasse o Nirvana na crista da onda tsunâmica do estrelato. Fenômeno que engoliu "Dangerous" de Michael Jackson, e deixou até os mais otimistas executivos da major Geffen sem entender patavinas do que estava se formando à frente de seus olhos. Para esses engravatados, que consideravam o álbum mediano e previam uma expectativa de vendagem igual ou inferior a "Goo", do Sonic Youth (cerca de 100 mil exemplares), foi assustador: o Nirvana estava vendendo essa quantia em uma semana! O grunge tornou-se um fenômeno popular.
Esse disco não apenas modificou o comportamento das mídias, mirando os holofotes para a cena local e pegando no colo o universo outsider
independente. Também causou grande impacto cultural nos fins do século XX, à medida em que as mesmas mídias também se interessavam pelo comportamento, atitude, maneiras de vestir dessa juventude. Lembro em meus 8 anos de idade, em 1991, que havia bonés estampados com "Nevermind" na aba por toda parte. Alguns amiguinhos de bola de gude não tiravam isso da cabeça! Na boa, desde a contracultura dos anos 60 o mundo não se via tão bombardeado.
5. Temple Of The Dog (auto-intitulado) (1991)
Só a nata
Este álbum é um registro notório da qualidade autoral das bandas do
noroeste norte-americano, além de retratar uma curiosa característica da cena, baseada nas inúmeras formações e projetos entre seus membros. Homenagem póstuma protagonizada por Matt Cameron e Chris Cornell (Soundgarden), Eddie Vedder, Stone Gossard, Mike McCready e Jeff Ament (Pearl Jam) ao amigo Andrew Wood, vocalista das bandas Malfunkshun e Mother Love Bone (o núcleo glam da cidade), morto por overdose de heroína.
No ano seguinte ao seu lançamento, esteve entre os 100 discos mais
vendidos. No repertório, hits eternos como "Hunger Strike" e "Say Hello 2 Heaven". Para ouvir de joelhos.
6. Ten (Pearl Jam) (1992)
Hinos da Geração X
O grupo - e o disco - que revelou o Bono Vox dos anos 90. Ten foi lançado pela Epic (uma sucursal menor da Sony) cerca de um mês antes de Nevermind, mas foi em 1992 já durante a pandemia grunge, que este álbum chegou ao topo, e as performances catárticas e polêmicas da banda, quase celebrações, as preferidas do grande público (em muitos registros piratas, é possível perceber o caos que se instaurava quando Eddie Vedder, notoriamente alterado, provocava a platéia questionando sobre a febre do som de Seattle, impulsionada pela grande imprensa mundial).
“Ten” é um debut recheado de hinos de Rock Arena que cujas letras, rezam a lenda, foram compostas pelo surfistão Vedder enquanto deslizava nas ondas de San Diego (uhuuu!). É o caso de "Alive", "Once" e "Footsteps" (esta, um lado B). A história conta que a banda estava a procura de um vocalista, e gravaram uma fita instrumental para distribuir cópias aos interessados. Jack Irons, na época ex-batera do RHCP, que conhecia os caras e Vedder, fez a ponte. Depressão, abuso sexual e famílias desestruturadas são temas que costuram a base Hard Rock recheada de solos (mais tarde o grupo seria alvo das ácidas críticas de Kurt Cobain, tachando-os de "Heavy Metal recauchutado"). Pero aqui figura como uma peça fundamental no desenvolvimento do grunge.
7. Singles (Trilha sonora do filme) (1992)
O grunge no cinema
O filme tem aqueles tiques clássicos do diretor e aficcionado por Rock Cameron Crowe: comédia romântica que se aproxima do cotidiano de várias personagens. Estes, por sua vez, têm suas vidas relacionadas umas com as outras. Estrelado pela gatinha Bridget Fonda e Matt Dilon (o arrogante Cliff, incapaz de reconhecer suas inaptidões musicais). O enredo se desenrola sobre a bela e sombria locação de Seattle, e claro, as personagens vão para os inferninhos ver shows de rock! Inclua aí apresentações de Soundgarden, Alice In Chains e Pearl Jam, especiais para a película.
A trilha sonora reserva ótimas surpresas, como “Breathe” do Pearl Jam, a comovente “Chloe Dancer/ Crown Of Thorns” do Mother Love Bone, além do seattlense Jimi Hendrix e Smashing Pumpkins. “Everybody loves us/ Everybody loves our town/ that’s why i’m thinking lately/ time for leaving is now” (todo mundo nos ama/ todo mundo ama nossa cidade/ por isso estou pensando ultimamente/ a hora de se mandar é agora), reclama e ironiza Mark Arm em “Overblown”, definindo o espírito daquela época. Baita soundtrack!
8. Dirt (Alice In Chains) (1992)
Som agônico
O Alice In Chains despontou com “Man In The Box” em 1990, em um disco para mim não muito resolvido (tinha até um Funk Metal, praga do Red Hot). Mas foi em 1992 que veio a obra-prima. Um álbum pesado, arrastado e soturno. Aqui se percebe o divisor de águas entre os compositores Layne Staley e sua psique doentia e auto-destrutiva (“Hate to Feel”, “Angry Chair”), e a veia pop melódica sob uma enxurrada de guitarras de Jerry Cantrell (“Rooster”, “Down In A Hole”).
Com esse peso na bagagem, o AIC fez muito sucesso em circuitos heavy/trash, abrindo para o Slayer por exemplo. Mas a inconfundível parede de vocais (marca registrada da banda) e as linhas de guitarra concisas de Cantrell fez do Alice uma das maiores bandas daquela época.
9. In Utero (Nirvana) (1993)
A Resposta aos tablóides
“Teenage angst has paid off well/ now I’m bored and old” (a angústia adolescente já deu o que tinha que dar/ agora estou velho e entediado). Talvez essa frase que abre o disco seja a síntese do que foi a ressaca do movimento. E ninguém melhor para proferi-la do que Kurt Cobain, que sentiu todos os dissabores do sucesso injetados em sua veia. "In Utero" é um manifesto, um basta que vem lá das vísceras do cara que foi afogado pelo preço da fama via jornalistas sanguessugas por todos os cantos, pela pressão externa de lançar um disco tão bem-sucedido quanto "Nevermind", pela espiral descendente da heroína, pelos escândalos envolvendo sua esposa e a perda da guarda de sua filha, os problemas internos com a banda, problemas com o pai, com a mãe, com ele próprio.
O disco tem a produção crua de Steve Albini, é um bolo de canções corrosivas ao extremo, que dividem espaço com obras suaves até então inimagináveis para Cobain, Grohl e Novoselic (diferente do unidimensional e polido Nevermind). Aqui estão os melhores momentos do rock contemporâneo: “Heart-Shaped Box”, “Radio Friendly Unit Shifter”, “All Apologies”, “Dumb” e demais pérolas que deixaram este escriba alucinado e querendo montar uma banda, em 1994. Mas isso é outra história.
10. Superunknown (Soundgarden) (1994)
O começo do fim
O “White Album” grunge aqui figura como um simbólico ponto final neste movimento. E que ponto! “Superunknown”, o quarto disco do Soundgarden, é uma torrente de peso, psicodelia, experimentalismo e punk, que consolida o excelente vocalista e compositor Chris Cornell (em ascensão desde “Badmotorfinger”, em 1991), abusa das diferentes e chapadas afinações de guitarra de Kim Thayil, e da cadência flutuante e fora do usual, em algumas músicas. Com tudo isso, ainda se tornou o maior sucesso comercial da banda. O álbum (eu possuo em LP duplo!) esbanja hits como “Fell On Black Days”, “Spoonman”, “The Day I Tried To Live”, a faixa-título e o réquiem surrealista “Black Hole Sun”. Já “Like Suicide” pode servir como um epitáfio, a despedida não-oficial de uma chama que apagou neste disco, mas na prática seguiu se esvaindo aos poucos até meados da segunda década de 90.
* Guitarrista e vocalista da Superguidis, estudante de Jornalismo, Grunjologia e TCCista sobre o Nirvana.