* Carlos Pinduca
A presença de bandas candangas históricas na escalação do último Porão do Rock jogou luz novamente em um rótulo musical que andava apagado havia mais de uma década: o “Rock Brasília”. Até mesmo o mais cético dos espectadores teve uma pitada de emoção ao assistir ao desfile de gerações roqueiras da capital federal no palco montado na Esplanada dos Ministérios no último final de semana: dos oitentistas Plebe Rude, Escola de Escândalo, Fallen Angel e Detrito Federal até os atuais Watson, The Pro, Superquadra e Móveis Coloniais de Acaju, passando ainda pelos representantes noventistas do Little Quail, Maskavo Roots e Os Cabeloduro – neste pacote, teve espaço até para os cariocas do Paralamas do Sucesso, espécie de padrinhos do rock federal. O clímax do festival foi a homenagem à Legião Urbana, maior nome da história do rock local (e, talvez, nacional), que reuniu membros de bandas brasileiras de diversas gerações.
Mais do que uma celebração, a 12ª edição do Porão do Rock acabou trazendo um sopro de motivação para algo que andava bem em baixa: a atual cena roqueira brasiliense. Quem acompanha as apresentações de bandas locais nos últimos dez anos, sabe que, com exceção do Móveis Coloniais de Acaju, o que mais se vê são shows meio vazios, com uma platéia formada quase que somente pelos amigos dos integrantes das bandas. Realmente, nada mais contrastante como os anos de ouro do rock da capital federal, que já viu seus representantes lotando estádios Brasil afora. Neste ponto, o Porão do Rock teve o papel de recordar-nos que vivemos numa capital com vocação não só para o rock, mas para a música POP, de uma forma geral.
Cheguei a Brasília em 1989, época em que existia uma verdadeira idolatria em relação às bandas da Capital. Lembro de, em minhas primeiras idas ao shopping Conjunto Nacional com a minha mãe, ver vários estandes com camisas que estampavam o nome de bandas brasilienses à venda. Além disso, era comum ter amigos de escola ou de quadra que tinham bandas, numa proporção bem maior do que em outros estados onde havia morado. O rock era uma espécie de orgulho e hábito local, principalmente para uma cidade nova como Brasília, que ainda buscava a sua identidade cultural.
Viver minha adolescência aqui me fez adquirir uma “alma brasiliense”. E, de uma hora para outra, me vi fazendo parte dessa turma que produzia rock na capital federal. Para a minha geração, dos anos 90, essa história de ser uma banda brasiliense ainda tinha algum valor e rendia até espaço em jornais de outros estados. De certa forma, o estouro nacional da geração anterior (Plebe, Capital e Legião) fazia brotar uma curiosidade por parte tanto do público e crítica brasilienses quanto de outros estados pelo que estava sendo produzido por aqui.
O engraçado é que as bandas que “deram certo” nos anos 90 acabaram sendo aquelas que conseguiram se desapegar desse rótulo de Rock Brasília, o tal gênero politizado dos anos 80. Lembro que, no momento de entressafra entre os anos 80 e 90, as bandas que comandavam os shows e pequenos festivais locais eram os clones de Legião & Cia. E, subitamente, aquelas bandas de moleques que tocavam, sem muita pretensão, forró-core, hardcore, rockabilly, reggae, ska e indie rock começaram a ser vistas como as originais e se destacar dentro e fora da cidade. A mesma coisa aconteceu na passagem dos 90’s para os anos 00’s: o que predominava eram os filhotes de Raimundos, até que alguns grupos quebraram o paradigma do rock irreverente e de putaria, para impor uma nova marca “mais séria”.
O interessante é que, mesmo ficando cada vez mais para trás, o Rock Brasília dos anos 80 continuou sendo um fantasma (meio conservador, em alguns aspectos) para as gerações posteriores. Isso porque ele se tornou a base de comparação para qualquer banda nova que comece a se destacar na capital federal. Ora, não é preciso ser nenhum gênio para notar que um novo Renato Russo não vai aparecer por aqui nem tão cedo - ou nunca mais. Além disso, sem tirar o mérito dos talentosos artistas dos anos 80, o período pós-ditadura e o Plano Cruzado criaram um clima absurdamente favorável para o estouro de bandas de rock politizadas. Isso nos leva a crer que, simplesmente, é muito difícil que condições tão positivas façam o rock brasiliense voltar a ser uma ‘grife’ e ter o mesmo reconhecimento do passado. E, na verdade, talvez esse parâmetro de estouro nacional nem seja mais muito importante em tempos de internet e “independência”.
E é nesse ponto onde quero chegar. No último Porão do Rock, encontrei muita gente que não via há tempos, que foi ao festival para reviver momentos felizes de suas vidas. Nada contra esse saudosismo: eu mesmo faço isso de vez em quando e acho até saudável, se não for excessivo. E quem sou eu para falar de saudosismo num festival que eu mesmo toquei com uma banda já extinta? Por outro lado, chega a ser paradoxal notar que, em um evento que se propõe a elevar a bola do rock brasiliense, as bandas novas da cidade (com exceção sempre do Móveis) estivessem numa posição de tão pouco destaque, confinadas ao Palco Pílulas e concorrendo com as apresentações das grandes atrações. De certa maneira, talvez o rock de Brasília volte a brilhar dentro e fora da cidade quando parar de viver de sua história e passar a olhar para frente, a fazer história.
* Carlos Pinduca edita o blog "Pinduca´s Blog", onde o texto acima foi originalmente publicado.