* Fernando Rosa
O selo “midsummer madness records” completa 20 anos de existência neste ano em que o independente nacional ganha corpo e se afirma como a melhor coisa do país em matéria de música e produção cultural jovem.
Criado e dirigido por Rodrigo Lariú, não por acaso sócio-fundador da Abrafin, o selo é talvez o maior atestado da paixão e do trabalho do movimento independente brasileiro que, desde os anos noventa, aposta em caminhos próprios.
Recentemente, Senhor F publicou lista dos 50 discos mais importantes dos últimos 10 anos, e vários deles foram editados pelo selo, assim como pela midsummer passaram vários grupos históricos do rock nacional.
Senhor F conversou por email com Rodrigo Lariú, que fala da história do selo em seu início, da relação com a arte e com os artistas e do que pensa do que ocorre hoje com o conjunto das atividades que envolvem a cena independente.
A entrevista
Senhor F - Quando foi criado o selo? Em que circunstâncias da cena musical brasileira? O que tem moveu a tomar a iniciativa?
Rodrigo Lariú - Eu considero que o midsummer madness começou em 1989, nas minhas férias de junho, quando eu ainda tinha tenros 15 anos. Era um fanzine mas, desde aquela época, nosso assunto principal eram bandas brasileiras, de preferência as independentes. Naquela época não havia um underground estabelecido, os fanzines eram o único canal possível. Quem me apresentou um zine pela primeira vez foi a Bia Lamego, vocalista e guitarrista do Stellar. Quando eu vi aquele "jornalzinho" na minha mão, decidi que era aquilo que eu queria fazer. Naquela época, na imprensa musical, só se lia sobre os grandes: Paralamas, RPM, Cazuza e afins. Os poucos independentes que conseguiam algum espaço eram bandas de jornalistas, como Fellini, Maria Angélica. Só que ao mesmo tempo, em poucos inferninhos de SP e do RJ era possível ver shows de bandas obscuras como Second Come, Squonks, Saara Saara, Pin Ups, Killing Chainsaw, e ouvia-se falar de Virna Lisi, Sexo Explicito, Vzyadoq Moe, Harry, estas coisas. A maioria dos fanzines da época eram copy/paste dos semanários ingleses e eu achava aquilo um saco. Dai resolvi que o tema principal do midsummer madness seriam as bandas udigrudis nacionais. A primeira edição sai em 1989 mesmo, a número zero. Em pouco tempo fomos elogiados no Rio Fanzine do jornal O Globo (pelo Tom leão) e saímos no MAUDITO zine que o Fábio Zimbres e a Priscila Farias publicavam encartado na revista ANIMAL. Daí começaram a chover cartas pedindo o zine e bandas mandando suas demos. Uma das que eu recebi foi a demo de 1989 do Killing Chainsaw, pra mim uma das melhores coisas já gravadas no Brasil em todos os tempos. Foi esta demo que me fez encartar uma fita na edição 4 do midsummer madness e começar a gravadora.
Senhor F - Qual foi o primeiro lançamento do selo? Quantos títulos o MMR ja lançou? Daria para citar alguns marcos dessa trajetória?
Rodrigo Lariú - O primeiro lançamento em áudio foi em 1991, uma coletânea chamada "raw" que tinha Second Come, Pin Ups e Killing Chainsaw, além de umas bandas gringas. O segundo lançamento também foi uma coletânea, intitulada "slowly making you want it" com música exclusiva do Second Come e músicas das demos do Pato Fu, Eddie (PE), Raimundos, Skijktl, Low Dream, Garage Fuzz e mais uma pá de bandas da época. Em 1994 saiu a primeira demo só de uma banda, foi a "Cachorrona" das Drivellers, banda de Niterói que minha irmã tocava baixo. Depois a primeira do Cigarettes e por ai vai... Hoje, neste catálogo, temos 94 lançamentos de mais ou menos 60 bandas, não incluindo as bandas de coletâneas. Acho que alguns marcos deste catálogo são as 3 demos do Cigarettes, sempre entre as fitas cassete mais vendidas, a primeira demo do brincando de deus, as demos do Stellar, também sempre muito requisitadas, a era Fortaleza, quando entre 1995 e 1996 lançamos 3 das 4 bandas mais importantes da cidade: Velouria, Dead poets e Banana Scrait, a demo do The Gilbertos, até hoje uma das minhas prediletas, com versão para "samba e amor", que rompeu com aquela coisa 'indie' do midsummer madness, as demos do Sleepwalkers, já listadas como as melhores coisas dos anos 90 no Brasil, a entrada do luisa mandou um beijo e do Nervoso pro mmrecords, recentemente, os lançamentos online de Private Dancers, Verano, Cassim & Barbária, a joint venture com a Transfusão Noise, todos com ótimos acessos em seus dias de lançamentos. Em 1997, nós lançamos os 2 primeiros CDs do midsummer madness, foram os discos de estréia do Cigarettes, "Bingo" e o 2º disco da Pelvs, o "Members to Sunna". Nosso catálogo de CDs tem hoje 25 títulos. Tem discos históricos como "Eurosambas 1992-1998" do The Gilbertos, o Ep do Casino, o "melodias de uma estrela falsa" do Astromato, "Saudades das minhas lembranças" do Nervoso, "Peninsula" da Pelvs, o primeiro do Luisa mandou um beijo que levou a banda a ter lançamentos em vários continentes e agora o do Dois em Um.
Senhor F - O MMR sempre zelou por uma marca registrada muito particular, a vertente indie, digamos assim. Como você vê hoje o resultado essa opção? Isso explicaria a longevidade do selo?
Rodrigo Lariú - A longevidade do selo tem a ver com isso também. Nunca fomos um selo de ir atrás da nova "modinha". Nossa preocupação sempre foi muito musical, de curadoria. O midsummer madness é um selo segmentado mesmo, buscamos bandas que têm a ver com um estilo de som que, resumidamente chamam de indie. Fico muito feliz de nestes 20 anos quase nunca ter ouvido comentários ruins sobre as bandas do selo. O sujeito pode não gostar de uma ou de outra, mas nunca viraram para mim e disseram "nossa, essa banda é muito ruim". Acho que este padrão de qualidade é que mantem o midsummer madness como ele é.
Senhor F - Recentemente, o MMR adentrou por uma caminho virtual mais radical, com disponibilização do catálogo para download? O que te levou a isso? Qual o plano?
Rodrigo Lariú - Nós demoramos para entrar no mundo online. Só em 2006 que nosso site passou a disponibilizar músicas para streaming e download. É que algumas coisas do midsummer madness andam a passos de formiguinha, esta parte virtual é um exemplo. Nosso caminho para este sentido acontece muito em função da observação do comportamento do nosso público. Em 1999, 2000, deixamos de fazer fitas cassete pois ninguém mais as comprava; substituímos a fita pelo CDR. Em 2005, 2006, a venda de CDs e CDRs despencou mas as pessoas continuavam conhecendo as bandas e comentando as músicas. Estava óbvio que nosso público estava trocando arquivos MP3 da internet. Dai resolvemos que se deveria existir um local para as pessoas conhecerem as bandas do mm, este lugar deveria ser o nosso site. Hoje em dia, sempre que a gente lança uma banda nova, daquelas praticamente desconhecidas, a página da banda no nosso site tem muito mais acessos que a página da banda no MySpace por exemplo. Para uma banda, estar no cast do midsummer madness é sinal de qualidade, e para o público, uma banda nova que lançamos é audição obrigatória.
Senhor F - Como produtor de um selo, como você viu a evolução da cena independente brasileira nesse período? O que avançou? O que ainda falta mudar?
Rodrigo Lariú - A qualidade técnica avançou muito, as produções melhoraram demais na parte técnica e na inovação. Algumas bandas tem um nível de profissionalismo ainda incipiente, mas muito a frente do que seria possível imaginar no começo dos anos 90. O intercâmbio entre bandas, produtores aumentou muito também, sendo os festivais independentes o fio condutor deste processo. O que falta mudar é o jeito que a maioria dos artistas encara sua produção artística. E não estou falando de optar por ser um artista-pedreiro ou ser uma banda de estúdio. Falo de uma simples sessão de auto-psicanálise, de saber o que esperar da banda, estabelecer metas realistas e cumpri-las a contento. Se isso acontecer, os músicos serão pessoas menos frustradas, menos egoístas e por isso mesmo, músicos mais brilhantes fazendo músicas cada vez melhores. Outra coisa que ainda precisa melhorar muito é o nível de profissionalismo deste mercado, mas eu acho isso uma questão cultural muito mais complicada do que se imagina. Passa por entender que o tipo de música que estamos lidando não é uma música para as massas, e a partir dai entender os limites deste mercado.
Senhor F - O que é ser um selo independente hoje pra você? É seguir um caminho de nicho, da especialização? Que tipo de relação de se estabelecer com as bandas?
Rodrigo Lariú - Eu fico puto de ouvir em palestras e debates que selos/gravadoras não são mais necessários, que as bandas podem se produzir sozinhas, se lançarem sozinhas. É um contra-senso, justamente nesta época em que todas as pessoas estão se comunicando mais, se juntando para trocar idéias, principalmente na internet, que algumas pessoas ainda pensem assim. Uma gravadora independente é um grupo de bandas/ artistas e produtores juntos para produzir o que eles acreditam ser o melhor da sua arte. Um artista-pedreiro não pode ser uma pessoa solitária, e ele vai sempre ter resultados melhores se outras pessoas que acreditam no som dele se juntarem a ele. Não sei se nicho/especialização é uma necessidade, no caso do midsummer madness sempre foi uma opção, desde 1989. Não há motivo que me faça divulgar ou trabalhar uma banda que eu não acho boa simplesmente porque ela pode estourar, ou vender muitas cópias, fazer sucesso. Não seria verdadeiro da minha parte. Por isso, o midsummer madness sempre escolheu trabalhar com bandas que nós achamos boas e isso acabou gerando uma especialização, de selo de rock alternativo, indie, ou coisa que o valha. A relação que o midsummer madness vem estabelecendo com as bandas nos últimos anos é outra das coisas que eu me orgulho. Estamos cada vez mais trabalhando em regime de parceria, de cooperativa. E o bacana disso tudo é que a parceria não é só minha com as bandas, mas das bandas entre si. Acaba que o midsummer madness está virando uma grande família, uma bela duma cooperativa, onde os músicos se falam, trocam idéias e produzem juntos. Nesse sentido, os negócios que o midsummer madness consegue têm ajudado várias bandas (e não apenas a "banda de trabalho"), ao selo e por consequência, todas as outras bandas da gravadora. A informação é dividida, o dinheiro também.
Senhor F - O que poderia ser feito para ampliar a força dos selos independentes nacionais? Ou pelo menos daqueles com mais afinidade editorial?
Rodrigo Lariú - Eu acho que a continuidade. Virar mesmo um selo de referência, uma "grife". Pensa bem, quando você quer ouvir novas bandas indies brasileiras, você vai ao MySpace ou ao midsummer madness? Eu acho que você vai ao midsummer madness porque no MySpace você não saberia por onde começar a procura. Selos fazendo 10 anos, 15 anos de vida dão uma importância à música independente brasileira, criam pontos de referência. Ao mesmo tempo, preciso dizer que nós do midsummer madness detestamos ser chamados de "guerreiros", "batalhadores do underground" e que nosso trabalho de 20 anos seja descrito como "resistência". Não é nada disso, as bandas que existem há 10 ou 15 anos continuam gravando músicas porque gostam do que fazem. Eu e meus sócios-amigos continuamos lançando estas bandas porque gostamos das músicas que estas bandas fazem. Não tem nada de resistência, de luta por sobrevivência nisso, é projeto de vida mesmo.