Prática de independência
* Fernando Rosa

Matéria da Folha de S. Paulo, sob o título de "Teoria da dependência", criticou o fato dos festivais brasileiros contarem com patrocínios privados e públicos. O texto, um tanto quanto rançoso, peca pelo tom reducionista de uma situação que hoje exige um tipo de análise mais profunda. O que, talvez, seja quase impossível de responder, diante das condições em que o jornalismo é exercido atualmente. Aliás, é interessante observar que as melhores matérias têm sido publicadas pelos cadernos de "informática".

É inegável a crise que atinge a cobertura jornalística cultural dos grandes meios de comunicação, ai incluindo os canais de televisão, que, com raras excessões, sempre se pautaram pelo "mainstream". Nunca foi tão grande o alheamento ao que DE FATO está ocorrendo na vida cultural do país, em particular do mundo musical. A desinformação em relação a produção discográfica, às cenas regionais e aos festivais independentes e seu papel social-cultural é só a ponta do iceberg.

A mudança do padrão da difusão musical não atingiu apenas a estrutura das grandes indústrias fonográficas, hoje totalmente perdidas sob todos os aspectos. Em breve, as rádios também pagarão, se já não pagam, com perda de audiência, o preço da relação incestuosa com as gravadoras por meio do ditatorial esquema "top-40". Da mesma forma, os grandes meios de comunicação se confundiram diante da nova realidade, o que resulta claramente na perda de seu poder de formadores de opinião.

Se em outros momentos da história do país, determinados órgãos e meios de comunicação tiveram peso para determinar tendências, hoje isso são águas passadas. Por conta da internet, e das novas ferramentas de difusão cultural, está ficando cada vez mais distante o tempo em que os cadernos culturais formavam a opinião sobre o que ver, ouvir ou ler. Até mesmo o papel de "filtro" da infinidade de informações oferecidas pelos novos meios a "imprensa de papel" vem se recusando a cumprir.

É inegável que os festivais independentes, combinados com a internet, são um dos fenômenos culturais mais importantes da moderna cultura brasileira, e que mereceriam uma abordagem mais cuidadosa. Sem exagero, os festivais independentes se tornaram em menos de uma década a principal plataforma de visibilidade, divulgação e distribuição da música jovem produzida no país. Algo como foram os programas de rádio e televisão e os festivais televisivos nos anos sessenta, as "discotecas" dos anos oitenta e a MTV nos anos noventa, para citar alguns exemplos.

Entender e mergulhar nesse universo para buscar uma maior compreensão social-cultural-estética, no entanto, exige um despreendimento que talvez esbarre em dificuldades ideológicas. A "cena independente" é fruto de um novo momento do país, em que sentimentos de cooperação, solidariedade e espírito coletivo sepultaram a última década de submissão a padrões externos e/ou coloniais. A crítica aos festivais independentes não por acaso vem acompanhada de promoção de "hypes" gringos e seus assemelhados internos que, talvez, sequer pelos "pubs londrinos" passaram.

Se os festivais independentes, ou não, atualmente contam com apoio e patrocínio é porque construíram uma história de trabalho, credibilidade e respeito social junto às sociedades locais, ou mesmo nacionalmente. É por conta disso que apoiadores e patrocinadores, de grande porte, investem nesses eventos, com a expectativa, ou melhor, com a certeza de retorno para suas empresas, produtos e marcas. Uma relação tão saudável, acreditamos, quanto a que leva esses mesmos patrocinadores, públicos e privados, a publicar seus anúncios nas páginas dos grandes jornais.

Em especial, o apoio do setor público aos festivais independentes, em particular, não deveria ser visto com uma "mácula", mas como uma obrigação de governos interessados e comprometidos em promover o desenvolvimento cultural do país. É injusto e, desculpem o termo, hipócrita, por outro lado, defender "igualdade" de condições entre uma banda iniciante, que necessita de espaço e de apoio, e o "produto" jabazado por grandes corporações sem qualquer compromisso cultural.

Enfim, se qualquer tipo de apoio ou patrocínio compromete a "independência" dos festivais, vamos combinar então que, a partir de agora, também os jornais passarão a viver apenas da venda de assinaturas e exemplares nas bancas.

* Fernando Rosa é editor de Senhor F.

 
 
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