Vinte raros e clássicos 'nuggets' do power pop dos anos noventa
* Fernando Rosa/Johnny McCartney

Em 1972, Lenny Kaye, então funcionário da Elektra Records, teve a brilhante idéia de produzir um álbum duplo com bandas que, apesar de fantásticas, ficaram perdidas no tempo, em parte pela grande quantidade e qualidade da produção dos anos sessenta.

A coletânea batizada de 'Nuggets: Original Artyfacts from the First Psychedelic Era 1965-1968' transformou-se em referência para as futuras gerações e lançou a idéia de coletâneas voltadas para o resgate de cenas e de bandas que produziram belas obras, mas ficaram à margem do mainstream.

Desde então, centenas de coletâneas cumpriram o papel de trazer da obscuridade bandas e discos geniais que, não fosse a idéia original e revolucionária do futuro guitarrista do grupo de Patti Smith, terminariam relegadas ao esquecimento.

Nos anos noventa, inúmeras bandas também produziram obras que, embora pequenas obras-primas, e restritas ao conhecimento de poucos e felizardos ouvintes, escreveram boa parte do melhor da história do power pop daquela década.

A maioria dos álbuns lançados por pequenos selos e com tiragens reduzidas, vendidas especialmente por meio da Internet, estão entre o que de melhor se produziu nos últimos anos e, em alguns casos, merecendo figurar nas listas de destaques de todos os tempos.

A presente lista (sem ordem hierárquica), portanto, restringe-se à cena power pop americana, um dos movimentos mais importantes das últimas décadas, que afirmou-se nos anos noventa com suas canções, guitarras Rickenbacker, especialmente, e harmonias vocais, conquistando ouvintes em todas as regiões do planeta.

Vinte obscuras obras-primas

The Shazam/Goodspeed of Shazam - The Shazam é um clássico trio de power pop moderno, formado por Hans Rotenberry, Mick Wilson e Scott Ballew. O grupo lançou o primeiro álbum em 1997 e, em 1999, o segundo, 'Goodspeed of Shazam', ambos pelo selo Not Lame (tem mais dois, até o momento). Seu som é uma espécie de Cheap Trick "anos noventa", com influências explícitas de The Who e harmonias vocais sessentistas. Em pouco tempo, transformou-se em uma das bandas mais interessantes da cena power pop.

Wanderlust/Wanderlust – Um dos álbuns mais geniais lançados na década de noventa, pela RCA americana, mas totalmente ignorado. Com forte influência de Big Star, a banda sustenta suas belas canções em guitarras Rickenbacker e vocais quase "blue eyed soul" no melhor estilo de Alex Chilton em 'Sister Lovers'. Formada por Soctt Sax, Robert Bonfliglio, Jim Cavanaugh e Mark Levin, a banda gravou apenas este álbum, lançado em 1995.

Cotton Mather/Kontiki – O álbum 'Kontiki', do grupo Cotton Mather, é outro que pode ser incluído em qualquer lista de grandes discos do pop de todos os tempos. Abrindo com uma viagem ao mundo dos Byrds 66/67, em seguida mergulha no universo Beatles com uma personalidade impressionante, e também em "Dylan 67". 'Home Front Cameo', 'Spin My Wheels' e 'My Before and After' são como se John Lennon revivesse em duas canções, na forma de compor e nos vocais.

Push Kings/Push Kings - O álbum de estréia do grupo Push Kings, originário de Boston, lançado em 1997, é uma das maiores pérolas do power pop dos anos noventa. Espécie de Beau Brummels moderno, pela singeleza das canções e dos arranjos vocais, pode ser incluído entre os grandes discos pop da história do rock. A banda tem influência direta de Paul McCartney, Badfinger e Squeeze, que se reflete nas 14 canções do álbum. O grupo gravou mais dois álbuns, sendo o segundo mais experimental.

Wondermints/Wondermints – Banda de Los Angeles, ganhou destaque por acompanhar Brian Wilson, em shows pelos Estados Unidos, e participar da gravação do disco ao vivo do ex-Beach Boys, 'Live at Roxy'. Mas, independente disso, Wondermints é uma das mais importantes revelações da cena independente americana dos últimos anos. Este disco, de 1996, é o segundo da carreira, lançado após um de covers, e antes do também clássico 'Bali', que tem 'Arnaldo Said', tributo ao músico dos Mutantes.

Gladhands/la di da - O álbum 'la di da', do Gladhands saiu em 1997, lançado pelo infelizmente extinto selo Big Deal. É o segundo álbum da banda, com um maior acento na linhagem dos trios de power pop dos anos noventa. Gladhands é formada pelos multi-instrumentistas e compositores Jeff Carlson e Doug Edmunds. A banda lançou mais um álbum pelo selo Big deal em 1999, também clássico, e depois foi editada a coletâna 'Once Upon a Song: Best of Gladhands'.

Gigolo Aunts/Flippin' Out - Com o nome tirado de uma canção do Syd Barret, Gigolo Aunts é outro expoente do power pop americano da atualidade. O som da banda traz um mix bem equilibrado de agressivas guitarras elétricas, vocal quase adocicado e harmonias vocais. Com cinco álbuns lançados, e originário de Boston, Gigolo Aunts é um dos grupos mais próximos de atingir a cena mainstream. 'Flippin' Out', o segundo álbum, é o que melhor expressa o som da banda.

The Mockers/Somewhere Between Mocksville And Harmony - The Mockers é, talvez, a banda mais desprentensiosa desta lista. Seu álbum de estréia, 'Somewhere Between Mocksville And Harmony', é tão belo quanto simples, inclusive em sua capa em preto e branco. Formada por Seth Gordon (que já entrevistamos para Senhor F), Tony Leventhal, Dean Howell e Shawn Pelton o grupo faz um som que passeia entre o power pop, folk rock e ecos do rock dos oitenta, com grande senso de composição e de harmonia.

Fountains of Wayne/Fountains of Wayne – O primeiro da série de albuns da banda, lançado em 1996. Fountains of Wayne é basicamente a dupla Chris Collingwood e Adam Schlesinger, este último autor da música tema do filme 'The Wonders'. Em sua estréia, a banda traz para a cena um mix de power pop regado a canções pop, vocais elaborados, uma certa urgência punk e guitarras psicodélicas. Contendo alguns clássicos como 'She's Got a Problem', o álbum abriu o caminho para a banda.

The Greenberry Woods/Rapple Dapple – Banda que contribuiu decisivamente para afirmar a linguagem do power pop americano em meados dos anos noventa. O álbum 'Rapple Dapple', primeiro dos dois gravados pela banda, abre com a música 'Trampoline', incluída na coletânea da Rhino Records dedicada ao power pop da década passada. A produção do disco, lançado em 1994, pela Sire Records, é de Andy Paley, que também trabalhou com Brian Wilson. Seus integrantes, assumindo outros nomes, formaram posteriormente o Splitsville.

Oranger/The Quiet Vibration Land – Banda de Los Angeles, formada por Mike Draker, Jim Lindsay, Matt Harris e Chad Dyer, com forte influência da psicodelia pop dos anos sessenta. 'The Quiet Vibration Land', o segundo álbum da banda, foi lançado em 2000, pelo selo Poptones. Já na primeira música, a banda entrega a influência dos Beatles, especialmente em vocais muito próximos, em forma e tom de voz, de Paul McCartney. Trata-se de um álbum de canções, com intrincados arranjos e harmonias vocais.

Velvet Crush/Teenage Symphonies to God – Uma das bandas mais profícuas e menos "retrô" da cena power pop americana dos anos noventa. Formada em Rhode Island, em 1989, a banda tem como integrantes mais destacados Paul Chastain, vocal e baixo, e o baterista Rick Menck. Um clássico, ‘Teenage Symphonies to God’ é o segundo álbum dos seis gravados pela banda, mais três coletâneas de singles, lados "b" e raridades. Com título em homenagem a Brian Wilson, o álbum tem produção de Mitch Easter.

The Apples In Stereo/Fun Trick Noisemaker – Uma banda que remete aos Beatles no nome e em parte de seu som, mas que também incorpora nas influências Brian Wilson, Arthur Lee (Love) e Burt Bacharach. 'Fun Trick Noisemaker' é o primeiro álbum da banda liderada por Robert Schnneider, e traz um som ainda cru e mais psicodélico. Nos discos posteriores, a banda avançou para sonoridades mais abertamente power pop e influenciadas pelos Fab Four e outras bandas sixties.

The Shambles/Clouds All Day - The Shambles, de San Diego, é formada por Bart Mendonza e Kevin Donaker-Ring, dois ex-integrantes da banda Manual Scan, expoente do revival mod americano dos anos oitenta. O álbum 'Clouds All Day' marcou a estréia da banda em 1996, trazendo refinados riffs de guitarras e harmonias vocais. Um dos destaques do álbum é a versão para 'Nadie Te Quiere Ya', do grupo espanhol dos anos sessenta Los Brincos. Outro clássico da banda é o álbum de covers 'What You're Missing'.

Mockinbirds/Mockinbirds – Banda formada por Mark Fuqua, Max Butler, Paull Babiak e Les James. Lançaram apenas um álbum, em 1996, depois relançado pelo selo Not Lame, em 1998. Outro clássico que também passaria batido na década de noventa, não fosse outra vez o selo Not Lame lançar luz sobre a obra. Baseada em poderosas canções e belos vocais, o grupo traz influências de Badfinger, Raspberries e, novamente, Big Star.

The Loud Family/Plants and Birds and Rocks and Things – Primeiro álbum de Scott Miller pós-Game Theory, sua banda anterior, mais voltada para a psicodelia. Com o Loud Family, Miller radicalizou a linguagem pop e, especialmente, a influência de Big Star em suas composições. 'Plants and ...' é um disco mais complexo do que as típicas canções de três minutos do power pop. Lançado em 1993, o álbum traz também influências de Beatles, particularmente de John Lennon.

Material Issue/International Pop Overthrow – Uma das bandas mais promissoras da cena do power pop americano, não fosse a morte (suicídio) prematura de seu cantor, compositor e guitarrista Jim Ellison. Lançado em 1991, e produzido por Jeff Murphy (Shoes), 'International Pop Overthrow' é um clássico do rock moderno, com suas belas canções de três minutos. 'Valerie Loves' e 'This Letter', pelo menos, são músicas fundamentais dos anos noventa.

Myracle Brah/Life on Planet Eartsnop – Outro grande disco na ‘Escola Beatles’ de canções diretas, riffs arrebatadores e vocais influenciados diretamente por John Lennon. Myracle Brah começou como projeto paralelo de Andy Bopp, do Love Nut, mas afirmou-se na cena power pop, já com seis álbuns gravados. Atualmente, integram a banda Paul Krysiak (também Splitsville), Marty Canelly, Joe Parsons e Greg Schroerder. 'Life on Planet Eartsnop', o primeiro álbum, foi lançado em 1998, pelo selo Not Lame.

Splitsville/The Complete Pet Soul - Splitsville são Matt Huseman e Brandt Hudeman, ex-Greenberry Woods, e Paul Krysiak. Splitsville estreou em 96 e gravou 4 álbuns. Embora lançado em 2001, 'The Complete Pet Soul' nasceu de EP homônimo, lançado em meados da década passada. O álbum é um clássico moderno, misturando sonoridades de Beatles/Rubber Soul, Beach Boys/Pet Sounds e pitadas de Burt Bacharach. A versão "completa" traz 11 faixas de puro prazer musical.

The Rooks/The Rooks – Banda de Michael Mazzarella que liderou a banda The Broken Hearts, responsável por um dos álbuns mais legais, mas também obscuro (ver matéria em edição anterior de Senhor F). 'The Rooks', o álbum de estréia da nova banda de Mazzarella, lançado em 1993, traz influência explícitas de Beatles, Big Star e também de grupos mais modernos como The Replacements. O segundo álbum, lançado pelo selo Not Lame, é outro clássico do power pop moderno.

* Fernando Rosa é editor e Johnny McCartney é colaborador de Senhor F.

 
 
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Edição 54
Balanço da década: os melhores discos independentes nacionais, ibero-americanos e internacionais

Em matéria especial, a seleção do portal Senhor F, que destaca Los Hermanos, Babasónicos (foto) e Strokes. Também destaque como personagem da década, o gaúcho Wander Wildner. O Top 25 nacional e ibero-americano está disponível para baixar.

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O single "Asa Belhas", que traz ainda como "lado b" o tema "Tupanzine" e a faixa-bônus "Tarifas e Medo", marca a estréia do quarteto em Senhor F Discos. A arte do single e do disco é de Virgílio Neto.
Segundo álbum do trio Sapatos Bicolores, "Quando o Tesão Bater" traz 13 canções com a marca da banda. Lançamento de Senhor F Discos & Monstro Discos, assinalando parceria dos dois selos.
Em breve, Noite Senhor F mensal, no Rio Grande do Sul. Aguardem informações sobre local, dia, horário e bandas aqui. O evento Noite Senhor F é organizado pela Produtora Senhor F.
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