* Fernando Rosa
Além da revolução musical e comportamental, a década de sessenta também mudou a concepção de apresentação dos discos. Se nos anos cinqüenta, a pobreza visual era total, com a beatlemania e, especialmente, com a psicodelia, as capas dos LPs ganharam status de arte. Uma idéia que, apesar do espaço físico menor, a era digital tenta manter com os já quase finados cedês, em muitos casos até mesmo com sucesso – como a maioria do material da Rhino Records.
As mudanças ocorreram em vários momentos e de diversas formas, envolvendo os principais artistas. Os Beatles lançaram um dos primeiros álbuns com capa dupla – 'Beatles For Sale', os Rolling Stones não colocaram o nome na capa de seu primeiro álbum e Jimi Hendrix incluiu um encarte com as letras das músicas no álbum 'Axis: Bold As Love'. Um pouco depois, os mesmos Beatles lançaram o álbum 'Let It Be' dentro de uma caixa, com uma verdadeira parafernália gráfica, os Stones colocaram um fecho-éclair de verdade na capa de 'Stick Fingers' e o Jefferson Airplane embalou 'Bark' com um saco de supermercado.
Os anos setenta e setenta foram palco de uma verdadeira guerra de capas, que resultou em obras que eternizaram-se na memória visual de muita gente. Entre eles, apenas para citar alguns, o primeiro Velvet Underground, com a banana; 'Atom Heart Mother', do Pink Floyd, com a vaca na capa; e 'Physical Graffiti', do Led Zeppelin, e suas janelinhas; E, o mais inventivo deles, 'Sgt. Pepper's', com sua galeria de personalidade, que detonou uma séria infindável de covers e sátiras, até os dias de hoje.
No Brasil, também rolaram experiências interessantes, com a caixa contendo três discos dos grupos The Beggers e The Black Stones, por volta de 1966, talvez a primeira box-set da história do disco - ou, pelo menos, no Brasil. Depois, a capa de A Banda Tropicalista do Duprat, com sua estética tropicalista em cima de Sgt. Peppers destacou-se na segunda metade dos anos sessenta. E, já em setenta e dois, Caetano Veloso com o disco-objeto 'Transa' - uma capa que formava um triângulo, radicalizou a experimentação gráfica.
Atrás de cada banda e de cada gravadora estavam artistas que, ou já atuavam em outras áreas, ou fizeram nome e fama com o mundo do rock and roll. Entre eles, o artista da pop-art Andy Warhol, que produziu as capas do Velvet e dos Stones, o cartunista Robert Crumb, que fez 'Cheap Thrills' de Janis Joplin e, ainda, a agência Hipgnosis, responsável pelas viagens visuais das capas do grupo Yes, especialmente. No Brasil, um dos principais criadores foi Rogério Duarte, autor de capas que contribuiram para afirmar a estética do movimento tropicalista.
No mundo "moderno", alimentando a briga em favor dos amantes das velhas capas de vinil, a indústria do disco passou a lançar cedês reproduzindo os formatos originais, e em papel. Um exemplo radical dessa iniciativa é o álbum duplo 'Exile On Main Street', dos Rolling Stones, reeditado em cedê com encartes, incluindo até mesmo a cartela de postais com a banda, em miniatura. Outros tantos discos, especialmente os clássicos, também ganharam novas edições em "papel", para atiçar a saudade dos velhos fãs do vinil e alimentar a indústria do disco com os mesmos produtos.
Uma volta ao passado, que alimenta a saudade, que apenas antecipa, para os nostálgicos de plantão, a "trágica" realidade da música virtual - sem objetos, sem capas, sem nada para pegar, para tocar, apenas som ... em seu computador, MP3 Player, Ipod, celular e o que mais inventarem. Mas que, dizem, não sepultará os velhos "bolachões", que nunca deixaram de ser editados, especialmente na Europa, e insistem, em suas versões 180g, em seguir alimentando o fetiche tátil e visual de velhos e novos fãs do formato.
* Fernando Rosa é editor de Senhor F.