A origem do 'funk' nacional na virada dos 60/70 e outras negras melodias
* Fernando Rosa

O 'funk' nascido no início dos anos setenta, no Rio de Janeiro, deixou profundas marcas na cultura musical brasileira. Até hoje, aquelas sonoridades sacolejantes reverberam em obras de Ed Motta, Cláudio Zolli, Max de Castro ou, indiretamente, até mesmo no repertório de bandas de rock, como Jota Quest. Herdeiro do "som black" e seus agregados comportamentais pós-hippies-black power, o funk setentão afirmou-se com o movimento Black Rio, que contava com a participação de músicos como Cassiano, Gerson Combo e Dom Salvador e Abolição.

Em parte fruto da integração da música negra brasileira, como o samba, com a contra-cultura dos anos sessenta, o gênero já vinha sendo cultivado desde os primeiros discos de Jorge Ben, que tinha sido 'Babulina' nos anos cinqüenta, da turma de Tim Maia e Roberto Carlos, e fã de Little Richard e outros roqueiros negros. Em 1969, Jorge Ben apresenta 'Charles Anjo 45', no Festival Internacional da Canção, acompanhado pelo Trio Mocotó, trazendo uma sonoridade funk-pop diferente do que se ouvira até então. Outro personagem emblemático, oriundo da mesma convivência cultural, era Gerson Combo, irmão de Getúlio Côrtes, talvez o único compositor negro da Jovem Guarda, e autor de 'Negro Gato'.

Na primeira metade dos anos setenta, depois de conquistar até mesmo as trilhas sonoras de novelas de televisão, o som black gerou seus principais representantes, nas figuras de Tim Maia, Cassiano, Hyldon, Paulo Diniz e Banda Black Rio. Mas como todos os gêneros musicais, o funk-soul expandiu seus braços e pernas e gerou seus 'cult heroes', como Gerson Combo e Tony Tornado, e seus intérpretes e grupos menos conhecidos, como Trio Ternura, União Black, Paulo Bagunça e A Tropa Maldita. A já referida miscigenação, também registrou-se nos casos de Miguel de Deus, oriundo dos tropicalistas Os Brazões e, especialmente, na dupla Tony & Frankye, que produzida por Raulzito Seixas, deixou a versão mais psicodélica do gênero.

Vale destacar, ainda que não diretamente ligada ao movimento black carioca, a obra de Roberto Carlos, gravada entre 1968 e 1971, especialmente. Com maestria, o rei da Jovem Guarda enveredou pelas sonoridades negras, em particular o funk e soul, deixando músicas e álbuns clássicos, registros da melhor fase sua carreira. Outros artistas brancos, como Vanusa, Eduardo Araújo (este produzido por Tim Maia) e mesmo Elis Regina, no final dos anos sessenta, também lançaram mão da mistura de soul e psicodelia, em destaque naquele momento. Eduardo Araújo, por exemplo, foi o primeiro a gravar 'Você', de Tim Maia, no álbum 'Boogaloo', lançado em 1969, e Vanusa é responsável pelo clássico psico-soul 'Atômico Platônico'.

Com a 'invasão nordestina' na segunda metade dos anos setenta, o funk-soul saiu de cena, deixando ótimos registros em álbuns, em sua maioria ainda inéditos em cd. São clássicos o primeiro disco de Gerson Combo, com A Turma do Soul, os dois álbuns solo de Gerson 'King' Combo, os três de Cassiano, os primeiros de Hyldon, Tony Tornado e o único da dupla Tony & Frankye, o também único de Paulo Bagunça e A Tropa Maldita, e ainda os registros da Banda Black Rio, União Black e Trio Ternura, entre outros. Neles, e em outras obras ignoradas, estão ensinamentos musicais, toques existenciais e uma afirmação da raça negra que quase nunca mais se viu na história cultural recente do país.

* Fernando Rosa é editor de Senhor F.

 
 
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