* Ricardo Schott
Impossível não pensar, ainda que seja lugar-comum, na volta dos Mutantes quando se vê o retorno da Bolha, banda cultuadíssima do cenário pop nacional dos anos 70. Mas é diferente: A Bolha não tem um mito como Arnaldo Baptista para emocionar e chamar a atenção do público - tem apenas a excelência de seus músicos (que depois do fim da banda, se tornaram acompanhantes de quase todo mundo que interessa na MPB e no pop nacional), a grandiosidade de suas canções compostas nos anos 70 (o repertório de 'É só curtir', disco novo lançado pela Som Livre, descansava num baú de músicas censuradas, guardado pelo baixista e xará do ex-mutante, Arnaldo Brandão) e o fato de encararem o público da mesma forma como encaravam na época.
A volta do grupo aos palcos, no Teatro da UFF, em Niterói (na última semana de abril), trouxe o quarteto original - Arnaldo, Renato Ladeira (guitarra, teclados, gaita e voz), Pedro Lima (guitarra e voz) e Gustavo Schroeter (bateria) - nu e cru, sem convidados multiplatinados, sem grandes aparatos, no mesmo clima de brincadeira que devia rolar nos shows do grupo nos anos 70.
Assitir A Bolha hoje é quase como fazer uma viagem à época. Se não dá para se sentir exatamente como rolava no Teatro Teresa Raquel, em Copacabana, até que dá para fechar os olhos e viajar - literalmente ou não. O grupo instiga isso começando o show com as luzes todas apagadas (a não ser por pequenas luzes pisca-pisca na beira do palco e nos microfones dos músicos) e mandando bala na pinkfloydiana 'Desligaram os meus controles', uma pedrada psicodélica de onze minutos, com vários improvisos.
Aiás, as tais luzinhas acabaram soando como mais uma curtição - se nos anos 70, todo mundo era obrigado a improvisar para dar um show, o espírito continua, só que com outra tecnologia. Filminhos psicodélicos, desenhos e até mesmo um clipe (o de 'Não sei', feito na raça e recentemente recusado por um canal de TV a cabo por estar "fora do target") eram exibidos por um datashow.
O show da Bolha deve ter deixado todo mundo impactado, e houve quem até se assustasse com os ataques de bateria de Gustavo em 'Desligaram...', em meio o quase-silêncio das guitarras apitando.
Da psicodelia ao progressivo, passando pela ressaca da jovem guarda e pelo folk rock - todos o gêneros existem no repertório do quarteto - teve para todo mundo. Rolou o rock´n roll lisérgico de 'Sem nada' (uma poesia quase beat que proclama "quero viajar, quero ir pra qualquer lugar" - e como devia ser complexo falar esse tipo de coisa abertamente há trinta e muitos anos), a alegria de 'É só curtir' (que praticamente funcionou como abertura do show, após o quase vinte minutos de impacto das primeiras canções), a cara-de-pau de 'Subentendido' ("a 'butuca do leão' era uma estátua de leão na qual o Gustavo ia pegar maconha", brincou Arnaldo, explicando um dos versos "enigmáticos" da música), a beleza de 'Mater matéria', etc.
Haveria a participação da banda niteroiense Os Lobos (outro grupo sessentista), que não aconteceu porque dois integrantes estavam de cama - mas rolaram altos grooves com Bruce Henry, ex-baixisa da banda Soma, que subiu ao palco para tocar com A Bolha duas músicas de seu ex-grupo, 'Treasures' e 'Where'. Altos improvisos jazzísticos para lembrar que a grande diferença daquela geração para atual talvez seja o ato de tocar sem compromisso, de simplesmente transar um som - sem o MySpace, os blogs e os fotologs para lembrar que o mar não está exatamente para peixe.
Ao final, rolou um momento supresa, com a lembrança de duas músicas da fase mais progressiva da banda (sem Arnaldo e com Lincoln Bittencourt no baixo), 'Esfera' e 'Um passo à frente', além do bis com '18:30', do primeiro single do grupo. Depois da viagem ao passado, ficou a impressão de que os tempos "realmente" eram outros - A Bolha é de uma época em que, mais que subir num palco e tocar, uma banda convidava o público a embarcar na viagem junto com eles. E quem será que faz isso hoje?
Ricardo Schott é jornalista, colaborador da Bizz e editor do blog Discoteca Básica.