Arnaldo Baptista em Porto Alegre
Roberto Panarotto

Segunda-feira, dia 31 de janeiro, estava eu almoçando no bar Ocidente em Porto Alegre juntamente com o Fernando Darin da banda Good Morning Kiss e a Grazzi da banda Wonkavision. Uma situação diria que corriqueira, se a alguns metros na mesa (quase) ao lado estava ninguém menos que Arnaldo Dias Baptista. Ficamos olhando como todo fã curioso querendo compartilhar gestos e olhares com o ídolo.

Passado o estado de choque inicial gerado inclusive pela apresentação na noite anterior, resolvemos divagar a respeito da importância desse individuo para música brasileira, em especial para o rock brasileiro. O cara simplesmente foi o líder, a cabeça pensante, da maior banda de rock que já existiu na música brasileira: Os Mutantes. A obra não é tão extensa, mas é com certeza muito significativa. O que ele fazia ali?

Estava na cidade em função da agilização de alguns gaúchos loucos e irredutíveis que resolveram organizar um evento e trazer o Arnaldo para fazer uma “participação especial”, como estava escrito no cartaz. Ninguém sabia ao certo o que ele iria fazer, mas indiferentes a isso cerca de 800 pessoas compraram ingresso e foram até o Galpão do IBGE para ver o Arnaldo. Era um festival e é lógico que tinha muitas outras atrações escaladas para a noite.

1 - Alguns dias antes...

Estava eu no meu local de trabalho (em Chapecó). Quando recebo via ‘messenger’ a notícia de que iria ter show do Arnaldo em Porto Alegre. No inicio não acreditei. Mas tratei de localizar alguns amigos que, assim como eu, são fãs de Mutantes e do Arnaldo para organizar um esquema para ir até Porto. Achei curioso porque não tinha quase nada na mídia dizendo o que era o evento, como iria acontecer e onde.

Paralelo a isso, estava acontecendo o Fórum Social e um tal de Planeta Atlântida que tirava a atenção da mídia. As pessoas que eu entrei em contato daqui de Chapecó não quiseram ir. Chegou a me passar uma dúvida pela cabeça. Será que vai ter o evento? Será que não vai ter? Será que eu vou, será que não vou? Resolvi arriscar e fui! No dia (já em Porto Alegre), é que fiquei realmente sabendo o que era e onde que a coisa toda iria acontecer. O local: Galpão do IBGE.

Mas onde diabos fica isso? Não importa. Comprei o ingresso e tratei de ir cedo para entender o que se passava e acompanhar todos os movimentos minuciosamente. O restante das atrações do evento: Júpiter Maçã, Bebeco Garcia e o Bando dos Ciganos. Baladas do Bom Fim. Julio Reny, Pata de Elefante. Os Arnaldos, Suco Eléctrico, Oly Jr. E, na discotecagem, Kid Vinil.

2- O evento, de um modo geral

Alguns imprevistos fizeram com que os shows atrasassem (Ah é?? Séééério?? Isso nunca acontece). O lugar me pareceu um tanto quanto estranho. Nunca tinha assistido a um show naquele lugar e todo mundo que eu comentava dizia o mesmo. Aos poucos as apresentações foram acontecendo. Quando a primeira banda da noite subiu ao palco a discotecagem já rolava solta com Kid Vinil. O nome da banda, Suco Eléctrico. Só conhecia de nome. Assisti algumas partes do show, mas estava muito ansioso para ver o que acontecia ao redor e a expectativa de ver o Arnaldo.

Portanto, meu poder de concentração estava totalmente em órbita. A mesma coisa aconteceu com o show do Oly Jr, que foi o segundo a se apresentar. A terceira banda da noite é um projeto do Egisto que resgata momentos de alguns artistas do rock gaúcho em reinterpretações. Os Arnaldos foi a quarta banda a subir no palco que em instantes estaria pisando Arnaldo Dias Baptista. Eles surgiram com a intenção de interpretar grandes sucessos do Arnaldo Baptista e Mutantes. Aos poucos começaram a trabalhar em composições próprias que passaram a ser o principal atrativo da banda. Restou apenas o nome em homenagem ao ídolo e alguns covers que eventualmente rolam nos shows.

A Pata de Elefante é uma dessas bandas do rock gaúcho que surgem assim “meio” que do nada e em pouco tempo todo mundo viu os shows, todo mundo fala bem, eles lançam CDs etc etc. Todo mundo que eu conversava dizia que o show era “du caralho” e que eu tinha que ir ver. Tinha uma certa curiosidade. Já tinha estado na cidade umas ‘trocentas’ vezes em que coincidia com apresentações deles e acabava não indo ver. Dessa vez tive essa oportunidade e não me decepcionei, pelo contrário.

Acho música instrumental meio chato. Mas no caso deles é um rock instrumental visceral dos infernos. A dinâmica de palco e de instrumentos faz com que a coisa aconteça de forma a deixar o “produto” com uma embalagem boa pra caralho sem ser chato e muito menos repetitivo. Todos são ótimos músicos e vem tocando muito, isso contribui para um entrosamento muito bom. E quem ganha, Silvio? O público. Eles lançaram recentemente o seu primeiro CD. Em breve estarei comentando algo a respeito.

Logo após a apresentação dos Arnaldos, mais sonzera com o Kid Vinil, até todos se recuperarem do baque. Bebeco Garcia sobe ao palco. Este dispensa apresentação. Acompanhado do Bando dos Ciganos, que é formado pelo Egisto e o baterista da formação original dos Garotos da Rua, fez um show de rock and roll no melhor estilo. O Bebeco já é figurinha carimbada do rock em Porto Alegre e em Chapecó também.

Julio Renny sobe ao palco fazendo o que (acredito) ele faz melhor (sem querer citar o Groo, mas já citando). Voz, violão, público e comentários politizados seguidos de canções, clássicos do repertório de um músico que é mais conhecido através dos palcos do que de seus discos. A apresentação foi curta, mas passou o recado de forma muito legal.

Pra encerrar a noite, Júpiter Maçã, outra figurinha carimbada do rock gaúcho que dispensa apresentações. Ele tem feito uma série de shows, ensaios e apresentações. O resultado disso está numa apresentação mais coesa e forte, musicalmente falando. Os comentários foram unânimes quanto à apresentação. Uma psicodelia total com momentos rock and roll e canções de vários momentos da sua carreira. A surpresa foi a execução da música ‘The Freaking Alice (Hippie Under Groove)’, do ‘Sétima Efervescência’, numa versão totalmente alucinada.

3 - O show do Arnaldo, "sem palavras"...

Sem palavras talvez seria a expressão mais clichê do mundo que eu utilizaria para definir o momento. Mas, no meu caso, em nenhum outro momento essa expressão teve tanto significado. A partir desse dia, eu vou ter que parar de usar a expressão “sem palavras”, porque essas serão destinadas eternamente ao momento que vivi no show do Arnaldo.

Já estava acontecendo um frisson desde o momento em que o Arnaldo chegou no local do show. O camarim era numa sala do lado de fora do local dos shows. "Olha, o Arnaldo está chegando!", gritou alguém. Todo mundo saiu para ver ele passar. Ele entrou na sala e ficou todo mundo rodeando, tentando entrar ou olhar pela janela, tirar uma foto ou filmar um pouco.

Assim que ele subiu ao palco restaram poucos segundos para as pessoas se agilizarem para se posicionar nos melhores lugares. Em poucos segundos o palco estava rodeado de pessoas que não arredavam o pé de jeito nenhum. O Arnaldo pisou no palco com o público se manifestando através de gritos histéricos no melhor estilo “beatlemania”. As duas laterais do palco estavam tomadas e os seguranças não conseguiram conter o público que queria se aproximar do Arnaldo, pegar nele, beijar, abraçar, ver de pertinho.

Foi uma das manifestações mais impressionantes que eu já vi com um artista brasileiro que não está na mídia, e que não se apresenta há muito tempo. Ele ficou muito emocionado e surpreso. Tocava trechos das canções, sempre puxadas por um coro (platéia) que o acompanhava com gritos ensandecidos. A apresentação durou dez minutos. Ele saiu do palco ovacionado e muito aplaudido, com o público gritando "Arnaldo! Arnaldo!". Na hora estava tão emocionado, assim como a maioria das pessoas que estavam no local, que eu não consegui reagir diferente.

Sobre a apresentação, o show em si, o que vimos foi a aparição de um mito. Além do que foi tocado e cantado, as pessoas queriam manter um contato com o ídolo, nem que fosse por alguns minutos. Nesse sentido, a reação do público me pareceu unânime, tanto antes quanto depois do show. Todo mundo dizia que se ele subisse no palco e apertasse uma nota no teclado e fosse embora já estariam satisfeitos. Música? Que música o quê! As pessoas queriam ver ele. Se ele tocasse alguma coisa melhor. Se não tocasse, não faria a menor importância.

Depois do show a indignação foi de quem não conseguiu chegar perto do palco pra ver. O ‘camera man’ que transmitia para os telões estava longe e não conseguiu filmar nada, porque a redoma humana que se formou em torno do Arnaldo cobriu tudo. Ouvir estava difícil porque o publico gritava o tempo todo. Simplesmente inacreditável. Quem é mais louco? O Arnaldo ou o público? Se for pensar assim somos todos loucos.

4 - Arnaldo em Porto Alegre, o documentário

A passagem de Arnaldo por Porto Alegre foi um marco histórico na cidade. Aqui os Mutantes sempre tiveram um público forte. Era no Sul que eles mais vendiam discos e muitas bandas do rock gaúcho sempre citaram os Mutantes como referência, desde o inicio da década de 80, muito antes desse frisson que surgiu na metade da década de 90, em função dos gringos terem conhecido a genialidade dos Mutantes.

Para o rock, de um modo geral, essa apresentação do Arnaldo também é um marco histórico. Porque o Arnaldo não se apresentava em público há muito tempo. As poucas aparições de que eu tenho notícia (se alguém souber de mais alguma, comunique) são do lançamento do tributo ao Arnaldo intitulado ‘Sanguinho Novo’ (NR- produzido por Luis Calanca e lançada pelo selo Eldorado).

Algumas participações em shows, como aconteceu no show do Sean Lennon, filho do John Lennon no Free Jazz de 2000. Na ocasião Arnaldo foi chamado ao palco pra tocar a música ‘Panis et Circensis’ e o público veio abaixo. De acordo com os comentários de quem estava presente, foi o momento mais aplaudido da noite. Outra aparição pública aconteceu no Abril Pro Rock de 2001, em que o Lobão conseguiu desentocar o músico anunciando uma participação no show.

Recentemente, com o lançamento do disco ‘Let It Bed’, Arnaldo apareceu em alguns programas de televisão, dentre eles o Jô Soares, Fantástico e alguns programas da MTV. Mas volto a enfatizar que há muito tempo não se anunciava um show do Arnaldo como aconteceu no último dia 30 de janeiro em Porto Alegre. O lance dele ter tocado dez minutos e o público reagir da forma que reagiu é inédito. Eu nunca tinha visto isso.

Se o Paul Macartney viesse pro Brasil, subisse no palco e tocasse dez minutos, no mínimo, o que iria acontecer é que o povo iria se revoltar, quebrar tudo e, se conseguisse pegá-lo, iam tirar o coro. Com o Arnaldo as pessoas reagiram como se aqueles dez minutos “mal tocados e cantados” valessem por um show de três horas, ou melhor, por anos e anos de espera para ver um ídolo.

A própria Lucinha, esposa do Arnaldo disse que nunca tinha visto aquilo, com aquela intensidade. Que em muitos momentos as pessoas se manifestam de forma inusitada, ficam surpresas e tudo mais, quando vêem o Arnaldo, mas não de uma forma tão intensa e tão fervorosa assim.

Todos esses momentos foram muito bem registrado por Renê Goya. Ele filmou simplesmente tudo, desde a chegada dele no aeroporto - ele nas ruas de Porto Alegre, em lojas de discos, camarim, passagens de som, entrevistas, contato com o público, depoimentos etc. São muitas e muitas fitas, horas e horas de gravação que vão se tornar um documentário sobre o Arnaldo.

Quando eu fiquei sabendo disso, tratei de conseguir o número do telefone dele e passei o dia de segunda-feira inteiro ligando no celular e dizendo: “... E aí René? Tudo ok? Aqui é o Panarotto. E o Arnaldo?”. Na maior cara de pau, passei o dia inteiro atucanando ele. Porra, vim de Chapecó só pra ver o Arnaldo e coisa e tal e tal e coisa. Sou um correspondente oficial da Senhor F e estou fazendo a cobertura para o site. Teria com trocar umas palavrinhas com o Arnaldo. E assim foi.

Pegaria o ônibus à noite para retornar pra Chapecó e consegui encontrar com eles na Galeria Chaves, no centro de Porto Alegre, no final da tarde. Isso já eram umas sete horas. Da galeria até o carro, descemos pela Rua da Praia conversando. Aproveitei para ligar a filmadora e registrar o momento que vocês conferem transcritos logo abaixo.

5 - Entrevista com Arnaldo

Roberto – Como é que tu sentiu a reação do público ontem no show?

Arnaldo Baptista – Eu fiquei assustado, porque eu não tenho muita experiência com o público aqui no Sul, né. Eu achei o público muito efusivo, ele se retrai muito, mas, na hora, exteriorizam. Num sentido assim generalizado, comparam o Rio de Janeiro com a Califórnia, São Paulo com Londres e Nova York e aqui comparam com a Escócia. O pessoal aqui já tem uma tradição e eu acho muito bonito.

Lucinha – Eu nunca tinha visto uma reação assim. Me lembrou um pouco Belo Horizonte.

Roberto - A gente que acompanha a carreira e observa de longe muitas vezes não consegue ter uma real noção do que acontece...

Arnaldo – Ah, isso é verdade. O grau de efusividade no show foi grande e ver o cara aplaudindo e ver que o cara gosta de verdade. É difícil de colocar isso em pratos limpos.

Roberto – Como é que foi pra ti estar lançando um disco novamente depois de tanto tempo?

Arnaldo Baptista – Pra mim foi uma espécie de recomeço da minha carreira, colocando o disco em banca de jornal e com um preço acessível. Então, eu estou tentando entrar nessa alternativa pra fugir da loja de disco com o preço caríssimo. Esse é um momento em que eu estou explorando isso do disco ser vendido em banca e barato.

Roberto – Como é que foi a divulgação desse disco?

Arnaldo Baptista – Eu estou fazendo bastante coisa. Então, eu estou vendo um jeito de promover esse trabalho. E fazer o melhor que eu posso, né. As entrevistas em televisão tem que ser com pessoas que curtam o suficiente para entender e entrevistar sobre o trabalho.

Roberto – E como tem sido a aceitação do público?

Arnaldo Baptista – Eu estava ansioso para ser julgado. Não adianta eu ficar falando que é assim que é assado, que eu prefiro Fender do que Gibson, se o pessoal não gosta daquilo que eu faço. Então tudo o que eu falo eu consegui botar em forma de música. Eu tenho a impressão que todo mundo tem uma música que está guardada dentro de si, e eu espero encontrar essa música e tocar. Vamos ver até onde eu alcanço.

6 - Esforço e paixão para levar Arnaldo

Aproveitei a deixa para conversar com o Egisto Dal Santo, um dos responsáveis pela vinda do Arnaldo até Porto Alegre. Egisto é o eterno membro da banda Colarinhos Caóticos que, de tempos em tempo, retorna e faz apresentações e lança algum material inédito. Nesse intervalo, ele se dedica a inúmeros projetos paralelos, tanto como música, como produtor ou agitador cultural. Então, com vocês Egisto Dal Santo!

Roberto - Sei que você é um grande fã dos Mutantes e já tinha conversando contigo há muito tempo atrás sobre o lance do Arnaldo vir até Porto Alegre. Como é que foi a viabilização disso tudo?

Egisto – Na real, era um projeto antigo trazer o Arnaldo a Porto, desde 91, 92... Eu e o meu irmão (Malukinho, Mario Dal Santo) fomos visitar o Calanca (Luis Calanca, da Baratos Afins) para conseguir algum contato. Depois, lá por 95 ou 96 (ah! eu tô Arnaldo!) eu e o Márcio Ventura tentamos organizar um show, onde o Colarinhos (Caóticos) acompanharia o Arnaldo e faríamos uma exposição dos desenhos e camisetas dele. Mas, os patrocínios dançaram e o teatro deu pra trás, além de estarmos completamente duros e sem nenhum reconhecimento. Agora, dessa vez, eu estava decidido a realizar de qualquer jeito. Meu sócio no show (e foi apenas nesse show) estava desistindo e eu firmei o pé pensando na expectativa que estava gerando no meu ídolo maior e no meu mestre espiritual, poético e musical (além de operístico e humorístico...). Decidi fazer de qualquer jeito, como foi o evento, sem apoio de nenhuma rádio, nenhum jornal (após o evento, fizeram matérias lascando um pedaço, mas não ajudando quando precisávamos de pagantes para viabilizar a cena), nenhuma loja se interessou (mesmo a gente pedindo uma merrequinha de ajuda). Mas eu não me entreguei, nem desisti em nenhum momento e, ainda, tive a brilhante (desculpa a falta de modéstia, mas vamos combinar que o Arnaldo é o Arnaldo, né?) idéia de fazer um documentário de toda a aventura, aguarde que vai ser foda!!! A Lucinha (o anjo fêmea) foi fundamental e colaborou muitíssimo para tudo dar certo, o Calanca foi quem me passou o telefone do casal e os contatos foram excelentes, desde o primeiro, em dezembro... Eu agi como um discípulo, tentando acertar e agradar o mestre em todos os sentidos, hoje somos amigos irmãos e tocamos na mesma banda (hehheheheheh! é a felicidade total alem da honra absoluta!!!). Muitos emails e muitos carinhos de ambas as partes. “Vida de Verdade”, diria o Frank (Jorge).

Roberto - Como tu sentiu a reação do Arnaldo pós show, dia seguinte, referente a forma como as pessoas reagiram quando viram ele?

Egisto – O Arnaldo está em outro nível de alma e espírito. Só estar perto dele já é o máximo. Ele adorou toda a jogada e nos deu depoimentos maravilhosos e curiosíssimos desde os Mutantes, comentando cada fase e toda sua carreira. O meu parceiro no documentário, Rene Goya Filho, também é fã doente do cara, e isso ajudou muito, foram as perguntas certas e as respostas dignas de Buda. Arnaldo não acreditava em toda essa gente (porque afinal era um evento especializado só com gente que gosta da verdadeira música e sabia tudo sobre o mestre). Não ter acontecido nenhum incidente de brigas e confusão na noite toda, chegando a ponto dos seguranças me cumprimentarem no final, nunca tinham visto tanta educação. E o público delirou em todos os shows, realmente prestigiando o evento. Claro que muitos roqueiros burros de Porto Alegre não apareceram (na próxima me pagam...). O show do Arnaldo foi um dos momentos sublimes da minha vida, com certeza o maior de todos e quem não foi não fez falta.

Roberto - Você se surpreendeu com isso, ou por parte da organização já se esperava algo do tipo (vi na programação que ele faria uma apresentação mais “calma” e de aproximadamente trinta minutos)?

Egisto – Eu tinha certeza de que daria certo, mesmo com a mídia nos boicotando devido ao festival palhoso "planetatrandida" só com aqueles vendidos que dizem que fazer rock brasileiro (teve o D2 de exceção, acho que foi só ele que valia a pena, o resto e aquela fazeção de "famosinhos"). Era pra ter um ‘talk show’ comigo e com o Kid fazendo umas perguntas malucas pra ele, mas na hora foi comoção total, e acabei sendo "amador" de tão emocionado (todo o corpo e alma em lagrimas de prazer, alegria, satisfação e esperança) e segui o baile. Eu mesmo me surpreendi com a disposição total do Arnaldo e entrega dele pro show e pras pessoas presentes, que acabaram dando início, de vez, na minha vida, a ‘ARNALDOMANIA’, se Deus me permitir estarei sempre ao lado dele! O público me surpreendeu na sua educação, que gentarada maravilhosa.

Roberto - Você acabou convivendo com ele durante esses quatro, cinco dias que ele esteve em Porto Alegre. O que tu tem a dizer a respeito do Arnaldo depois disso?

Egisto – Não tem como explicar direito, é uma experiência mística dentro da música e da vida. O Arnaldo é uma lição de vida espetacular, fugindo de qualquer padrão ou qualquer coisa que eu tenha passado nos meus zoados 40 anos de existência. A minha vida ele mudou com certeza, e acho que a de muita gente que trabalhou para o evento e para o documentário, nesses que foram os cinco melhores dias da minha vida. Não tem retórica, é a pura e bruta (apesar da super suavidade do ARNAU (Arnô, como diz a Lucinha "bala") verdade, provavelmente, absoluta. O Arnaldo é um imã do bem e da luz; depois que se chega perto dele, a gente não consegue mais desgrudar. No momento, já estou sofrendo a famosa síndrome da abstinência, eu quero e mais. Estou pensando em me mudar pra Juiz de Fora ... vai saber...

Rolberto - Soube que o Arnaldo gravou uma participação especial no próximo disco do Colarinhos Caóticos. Conta como foi?

Egisto – Não é o Colarinhos, é a Tríade, o Colarinhos está com disco novo (com a formação original que tinha quebrado em 89, no Aeroanta) quase pronto, mas só tem a participação de um gaiteiro de Soledade, o Gerson Lobisomen. O disco da Tríade tem quatro músicas gravadas e está sendo finalizado durante o mês de fevereiro. Agora quero lançar o quanto antes, quem sabe a Universal não se interessa, vai saber. Mas a banda existe independente de tudo e o álbum deverá sair mais ou menos por maio, talvez um pouco antes. Já tem nome (que tem de ser mantido em segredo, que aqui em Porto tudo se copia, e muito, tem gente que até faz Acústico MTV copiando descaradamente artistas independentes que se matam pra ganhar a vida!). Muitas dessas bandas que aparecem, eu acho uma merda, só gente que quer ser o cara, e não abrem espaço para nenhum conterrâneo. Se acham o máximo, eu acho merda alienante da pior qualidade. Perguntei ao Arnaldo já na segunda noite, se ele gostaria de tocar no meu disco e ele adorou a idéia, deixei muito à vontade para escolher a canção, mas ele acabou escolhendo todas as quatro que já estavam com bases prontas, tocou absurdamente genial, misturando Hermeto, Tom Jobim, Debussy, Beethoven e muito ‘arnaldismo’, aquele sacramentado ao melhor estilo ‘Lóki’ e ‘Singing Alone’. Eu mesmo me apavorei e fui as lágrimas em vários momentos. O melhor ‘take’ foi quando ficamos só nós na sala de gravação, sem o aparato do documentário, e ele até quis cantar, e cantou, claro, mudou a letra e deu toques ferozes (normais ZEN dos sentidos). Espero na mixagem ter o dom de acertar como ele acertou gravando. Agora, neste mês, gravaremos mais músicas (mais umas 5 ou 6) e acho que vão ter varias versões de algumas, com pianos diferentes. O melhor foi ter juntado o Arnaldo e o Chaminé na mesma faixa, na imortal (e inédita) ‘Bar do João’, referência aos bons tempos do Bom Fim. Na real o Arnaldo é muito pessoal e impressionante tocando, com exceção de ‘Eu Sei Que Você’, um blues-groove em tom menor. Todos os pianos dele levaram as canções para lados inusitados, mas ficou excelente. Vai ser difícil escolher o solo certo (parece o Eddie Krammer escolhendo os solos do Hendrix). Detalhe: Chaminé faleceu em maio e só por isso eu sou baixista da Tríade, pra substituir o velho Chaminé, (só eu mesmo), cantando e tocando baixo. O Chaminé também foi, e sempre será, um mestre pra mim. Toco baixo influenciado por um show que eu vi em 81, do (Mário) Barbará e Saracura no Salão de Atos.

Roberto - Fala sobre a falta de apoio da mídia de modo geral e da participação do kid Vinil no evento?

Egisto – O Kid é do bem e está disposto a fazer história. Ele gostou muito das bandas gaúchas que tocaram no evento. A falta de apoio da mídia é praticamente normal aqui. Tem um jornal e uma rádio que trabalham exclusivamente (praticamente 101%) para gravadora do conglomerado, e que sob a batuta do “popeiro” Teddy Correia (entendi com as meia!, está lançando apenas produtos descartáveis e de extremo mal gosto. Com exceção de algumas bandas que apenas faltou um produtor. Técnico (de estúdio) não é produtor. Algumas exceções existem no mundo, mas em Porto Alegre não. O pessoal daqui só se interessa pela grana. Não há nenhuma preocupação artística ou roqueira. A lenda sobrevive através de nós, os independentes, os libertos, os insanos, os abandonados, os que estão fazendo a verdadeira história, e no futuro, com certeza serão os únicos a serem lembrados. Assim como os Mutantes são idolatrados entre dezenas de bandas que existiram na década de sessenta e setenta, que simplesmente passaram, foram esquecidas... A mídia daqui é atrasada. Sempre foi. E quando vê algo, provavelmente, a coisa já passou, ou então, se vendeu pro outro lado. Uma rádio (que se diz a dos loucos, pediu R$ 2.000,00 para entrar no projeto). Outra ainda não me mandou o orçamento que eu pedi (e isso que eu estava disposto a colocar R$ 1.000 em chamadas - simplesmente não obtive resposta, sabe, os chefes estão de férias e os ratos dominaram o navio). Eu estou cagando pra mídia, como sempre estive. Não farei concessões aos meus objetivos e padrões estéticos e artísticos, afinal, já tenho quarenta anos e não interesso a eles de jeito nenhum. Estou fora das programações das rádios gaúchas desde o começo da minha carreira, com algumas exceções em épocas estranhas. Não sou considerado radiofônico em Porto Alegre, mas desprezar o evento e a vinda do ARNALDO BAPTISTA, O COMANDANTE DA NAVE DO ROCK NACIONAL, realmente é de uma ignorância que só deve ser desprezada. Tivemos o apoio incondicional do Mutuca, único programa que o Arnaldo fez, e fez feliz e com prazer, alguns radialistas da Ipanema também ajudaram dando toques e falando por fora (sem jabá) do show, mas sujeitos a levarem “pitos dos chefes”, que preferem samba-rock (e conhecem esse termo a uns três anos) e eletrônicos (e não percebeu que no ‘Let It Bed’ tem coisas significativas e de muito bom gosto, nesse sentido). Cada um com o seu cada qual. Afinal, realizamos o evento sem apoio e foi um sucesso. Quem sabe chegaremos a conclusão de que não precisamos deles afinal.

7 – Em breve, nas melhores casas do ramo...

Roberto - Como surgiu a idéia de gravar esse material com o Arnaldo? Rene Goya - Este trabalho resultou de uma experiência inusitada. Estávamos gravando um documentário no Fórum Social Mundial sobre as comunidades indígenas com a minha produtora, a Estação Elétrica Filme e Vídeo, quando recebi um convite do Egisto (que ainda não conhecia pessoalmente), para fazermos um registro da passagem do Arnaldo em Porto Alegre. O sinal bateu: larguei os índios, acertamos os ponteiros e iniciamos uma jornada sensacional. Foram gravadas mais de 20 horas de imagens, entrevistas e, claro, o show. A Estação Elétrica tem um longo trabalho de produção de conteúdo. Eu já dirigi vários videoclipes de bandas, já lançamos três DVDs no mercado e também produzimos vários documentários e especiais para televisão.

Roberto - Você teve a oportunidade de conviver com o Arnaldo durantes esses quatro cinco dias que ele esteve em Porto Alegre. Comente sobre isso.

Rene Goya - Conviver com o Arnaldo revela na verdade a forte presença da mulher dele, a Lucinha. Ela é a grande responsável pelo renascimento dele. É um porto seguro. Acho que conhecer a intimidade de alguém revela também várias contradições. Uma coisa ficou certa prá mim: vida e obra do mutante se confundem. Hoje, ele é o reflexo claro do ‘Let it Bed’. Fragmentado, urgente, genial. Pessoalmente, tivemos dois grandes momentos: um por do sol inacreditável no Guaíba regado a refrescos espirituais. E uma ‘jam session’ no Bom Fim com o Egisto no violão, Lúcio na cítara, Mateus (operador de som) e eu nos ‘backings’ e o Arnaldo cantando ‘O Sol’. Foi demais. A turma ficou em silêncio depois que o som acabou.

Roberto - O que mais te impressionou no Arnaldo?

Rene Goya - O bom humor. Ele está sempre fazendo uma piada ou uma tirada filosófica. Está sempre reinventando o sentido das palavras. E o aspecto espiritual também. Ao mesmo tempo que falamos de Yes, Mutantes, Captain Beefheart e Hermeto Pascoal, tem horas que ele parece flutuar desses assuntos para um outro ponto qualquer. E retorna para lembrar que os amplis valvulados tem o melhor som. Pode crê.

Roberto - De que forma você pretende disponibilizar esse material gravado?

Rene Goya - Minha idéia é fazer um documentário sobre a vida e a obra do Arnaldo tendo como referência narrativa essa passagem por Porto Alegre. Estamos já pesquisando fotos e imagens dos shows que os Mutantes fizeram aqui em 69 e 72, que vão ajudar na história. Além disso, gravei longamente com o Arnaldo falando sobre os LPs dos Mutantes e os solos. Ele revelou coisas bem interessantes. A idéia básica é esta. E acima de tudo, o que eu mais senti, foi a energia positiva que a música do Arnaldo gera para as pessoas. Porto Alegre deu uma recepção merecida ao grande gênio do rock brasileiro. Eu vi tudo e posso garantir.

8 - Agradecimentos especiais

Fernando Darin (que me avisou do evento, me deu pouso e se sujeitou as minhas chatices de fã para encontrar o Arnaldo na segunda-feira), João Marcelo (colega de trabalho, que me emprestou a grana da viagem), Egisto (que organizou a bagunça toda), Renê Goya (que nos presenteará em breve com uma “baaaita” material), a Lucinha (por ter cuidado tão bem do Arnaldo durante esse tempo todo) e, é claro, ao “Deus” Arnaldo Dias Baptista (força e saúde para que ele continue iluminando as pessoas por onde passa).

* Roberto Panarotto integra o grupo Repolho, é um d'Os Irmãos Panarotto, edita o site Agito com Balalau e é correspondente oficial de Senhor F para reportagens especiais.

 
 
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INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA
Saiba mais sobre o Festival El Mapa de Todos e os artistas latinos que participaram na edição 2012

O festival ocorreu nos dias 6,7 e 8, em Porto Alegre, na casa de shows Opinião, com patrocínio da Petrobras, via Lei Rouanet, do Ministério da Cultura do Brasil, e apoio especial da Secretaria de Cultura do Estado do RS e da central sindical Força Sindical - RS.

> Ouça entrevista com o jornalista argentino Claudio Kleiman sobre o festival, feita por Joseba Martin, do programa La Jungla Sonora, da Rádio Euskadi, do País Basco, Espanha.

A gaúcha The Tape Disaster lança seu segundo trabalho, o single "A Voz do Fogo". São dois temas instrumentais, com a qualidade de uma das melhores bandas instrumentais do país.
"Uma das mais gratas surpresas de 2010", escreveu Fábio Massari apresentando o disco em sua coluna na internet. O disco de estréia dos brasilienses é a nova aposta de Senhor F Discos.
Em dezembro a Noite Senhor F completou 2 anos em POA, com produção de Brisa Daitx. Em março, retorna para o Opinião, apostando na cena independente. Em breve, o lineup da 1ª Noite.
Desde janeiro de 2008, veiculado pela Rádio Câmara, da Câmara dos Deputados, o programa Senhor F Sem Fronteira difunde a música iberoamericana de todas as gerações e países.
O Programa Senhor F não está sendo mais veiculado pela Rádio Ipanema, de Porto Alegre. Segundo a produção, deverá retornar em breve, em outra emissora, ainda sem definição.
Veja como foram as edições anteriores do Festival El Mapa de Todos. Também aguarde aqui informações sobre a nova edição, já confirmada. Novamente em Porto Alegre, no final do ano.