A história da cena independente pela lente 'rock and roll' de Renato Reis
* Fernando Rosa

Ele já é tão ou mais conhecido do que muitas bandas "famosas" da cena independente. Desde 2003, tem participado com sua máquina de festivais e eventos ligados ao rock, inicialmente em Belém, sua cidade natal, e depois, praticamente em todo o país. "Tudo começou em uma Noite Senhor F", diz Renato Reis, lembrando da excursão com a banda paraense Eletrola que, em 2005, tocou em Brasília, abrindo um show para o Cachorro Grande.

Algumas das principais bandas já passaram pelo foco de sua lente "rock and roll", com ótimos resultados, como Macaco Bong, de Cuaibá. Ao lado de Vinicius Mania, de Cuiabá, Renato Reis é um dos poucos fotógrafos especializados na cena independente. Uma atividade importante para o desenvolvimento do movimento que, segundo ele, ainda está por merecer uma maior valorização por parte dos produtores e mesmo das bandas.

"Acho que está na hora de dar um importância maior à fotografia. Muitos festivais acontecem e não se acha uma foto, uma imagem. Talvez tentar trazer mais fotógrafos para as cenas, assim como se traz videomakers, jornalistas, designers, etc”, alerta ele, com toda razão. Senhor F entrevistou Renato, que fala de sua formação, conta histórias e também revela suas preferências musicais.

Senhor F - Você é fotógrafo profissional, ou apenas registra eventos ligados ao rock como diversão? Ou as duas coisas?

Renato Reis - As duas coisas. Há pouco mais de um ano, trabalho como “freelancer: em revistas de Belém e de fora, e o que mais aparecer. No meio tempo disso, tenho alguns projetos ligados à fotografia, outros ao próprio rock. E sim, continuo freqüentando os eventos ligados ao rock como diversão, afinal sem diversão, perde a graça.

Senhor F - Desde quando você é fotografo, e como surgiu o lance da fotografia na sua vida?

Renato Reis - Fotografo desde 9 de dezembro de 2003, dia em que comprei minha primeira câmera digital, em 10 vezes sem juros. Na época, eu estudava Ciências da Computação e trabalhava numa escola de inglês. Quando pequeno eu desenhava. Mais tarde, comecei a fazer isso no computador, arte digital, design, sempre por pura brincadeira. Comprei a câmera meio que pensando nesse fim. Ter imagens para poder brincar no computador. Acabou que gostei da brincadeira e descobri algo que sei fazer bem. Virou profissão. Tempos depois acabei abandonando o curso de computação, o emprego (isso eu conto mais pra frente) e me vi com uma câmera na mão e tendo que ganhar dinheiro de algum jeito.

Senhor F - Algum fotógrafo influenciou, ou influencia profissionalmente, dentro ou fora do rock?

Renato Reis - Assim como quase tudo que eu já fiz, eu aprendi a fotografar sozinho. Com o tempo, fui descobrindo um jeito próprio de olhar as coisas, e essa é a graça da fotografia. Uma cena nunca é igual, pois cada um vê de uma forma. Tempos depois, tive acesso a livros, a outros fotógrafos, e de certa forma cada nova informação, seja de livros, sites, pessoas, ou situação acabam influenciando. E no rock, antes de começar a fotografar, um amigo, o Alexandre Nogueira, daqui de Belém, fotografava bastante shows pro extinto site Norte ao Rock, eu freqüentava os shows e achava um barato ver as fotos. Ele me ajudou bastante e até hoje trocamos figurinhas. Então, digamos que de certa forma ele também me influenciou.

Senhor F - O que te atraiu para fotografar festivais independentes e também as bandas?

Renato Reis - Começei a fotografar bandas porque eu próprio já tive algumas tentativas de ter banda, e freqüentava bastante os shows pela cidade, sempre com a câmera na mão; fazia uma foto ou outra, as bandas iam gostando, eu também. Com o tempo as pessoas me chamavam pra ir nos shows, e eu ia, fotografava, fazia novos amigos, bebia de graça. No começo de 2004 conheci o Eletrola, e eles me chamaram pra fazer uma sessão de fotos, e se fez uma amizade com a banda. Começei a acompanhá-los. Quando foi no fim do ano eles iriam tocar na Noite Senhor F em Brasília, com Lo-fi e Cachorro Grande e no sensacional 10º Goiânia Noise Festival. Então, o começo de tudo foi numa Noite Senhor F. Em fevereiro de 2005, saímos em turnê 40 dias na estrada passando por Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiânia e Brasília. Vi muitos festivais nessas andanças, tudo por culpa do Camilo, que me chamou pra ir e bancou as minhas passagens.

Senhor F - Como tem sido realizar este trabalho, e no que ele difere de outras situações?

Renato Reis - Tem sido muito legal, sabe-se Deus porque, mas eu sinto prazer fotografando shows. Quem me vê nos shows sempre fala que eu fico lá cantando, pulando, às vezes no meio da galera mesmo, e sempre de olho nas cenas que acontecem. Isso é o que difere, a energia é diferente. É como um teatro que a gente fica sempre torcendo pra que seja diferente.

Senhor F - Quais os eventos mais legais que você fotografou? Alguma situação que mereça destaque, por algum motivo especial?

Renato Reis - O Se Rasgum no Rock, primeiro festival independente de Belém foi diferente de todos que já fui. No meio da floresta, todos se divertindo como se estivessem todos numa grande colônia de férias. Destaco também a turnê com o Eletrola, 40 dias na estrada, sem saber o que ia acontecer. Todo dia uma aventura, uma situação nova, um lugar novo, turnê essa que terminou em mais uma Noite Senhor F, com o Bois de Gerião, com certeza essa aventura ficará para sempre na memória.

Senhor F - O que o olhar do fotógrafo percebe/registra./tem a dizer sobre a cena independente atual?

Renato Reis - Vejo uma cena em grande efervescência e consolidação. Mas, já que estamos falando de fotografia, acho que está na hora de dar um importância maior à fotografia. Muitos festivais acontecem e não se acha uma foto, uma imagem. Talvez tentar trazer mais fotografos pras cenas, assim como se traz Videomakers, Jornalistas, Designers, etc. Seria muito bom ver mais fotógrafos por ai, circulando também, registrando as cenas e expondo isso. Que chegue o dia em que as bandas, além de não entregarem gravação, mixagem, design para qualquer um, se preocupem também com a produção fotográfica, e esqueçam que “foto qualquer um faz”.

Senhor F - O que você mais gosta de ouvir, incluindo clássicos, bandas atuais nacionais e estrangeiras?

Renato Reis - Depende do dia, da situação. Ouço um pouco de tudo, mas não canso de ouvir Pink Floyd, banda que eu já cheguei a ter uma imensa coleção de piratas. Não sou um grande conhecedor de música, mas sou bastante curioso e estou sempre atrás de coisa nova pra ouvir (ou velha, já que tem muita coisa clássica que eu não conheço) .

Senhor F - E das bandas independentes, alguma, ou várias, tem chamado a sua atenção?

Renato Reis - Muitas. Pra citar uma, o Macaco Bong me impressiona a cada vez que os vejo. Mas pra ser mais regional, em Belém, o Madame Saatan que eu acompanho de perto desde 2004, cada vez mais me impressiona, a cada dia, a cada música nova, a cada show.

Senhor F - Alguma foto preferida, ou mais marcante no mundo do rock, em todos os tempos?

Renato Reis - Difícil dizer, nunca fui de fazer listas. Dar um 1º lugar então, mais difícil ainda. Quem sabe alguma que eu já tenha feito ou farei, vire uma delas.

- Veja aqui as fotos de Renato Reis em seu site.

- Leia também entrevista com o fotógrado Vinicius Mania.

 
 
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Edição 54
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