* Fernando Rosa
A segunda edição do Festival Varadouro, realizada dias 20 e 21 de outubro, em Rio Branco, afirmou definitivamente a cena local no circuito nacional da música independente. Um feito a ser comemorado não apenas pelos organizadores, mas por todos os segmentos envolvidos e comprometidos com a cultura do Acre e da Região Norte, que apoiaram o festival.
O sucesso do evento transforma, sem dúvida, o Varadouro no principal festival independente do Norte e em nova referência para o restante do país, ao lado do Abril Pro Rock (Recife), Porão do Rock (Brasília), Noise & Bananada (Goiânia) e Calango (Cuaibá), entre outros.
Mais do que ter dobrado a quantidade de bandas convidadas, o número de dias e também a presença de público, a afirmação de um conceito diferenciado de festival é a grande vitória dos acreanos.
De cena isolada à referência regional
De cena isolada, condenada às piadas sobre sua existência - até música sobre isso já existia -, Rio Branco e sua produção musical jovem passa a ser pólo irradiador de idéias, como registra a revista Rolling Stone, em sua primeira edição no país. Em pouco tempo, os novos ventos locais gestaram ótimas bandas, com destaque para Los Porongas, saudada como uma das revelações do novo rock nacional, como registraram o Jornal do Brasil, revista Bizz e programa Alto Falante, entre outros órgãos especializados.
Desta vez realizado em dois dias, o festival ampliou o número de convidados, abrindo o evento para a participação de bandas de várias regiões do país, de Porto Alegre a Belém, e também jornalistas dos principais órgãos especializados em música jovem. Em duas noites de shows, a juventude acreana tomou contato com grupos de grande qualidade, como Moptop, que recentemente abriu para o grupo inglês Oasis, em São Paulo, os clássicos Walverdes e o novato Macaco Bong, que ainda vai dar muito que falar.
Agregando valor e construindo a cena
Antes de assumir o papel de "festival-espetáculo" desprovido de objetivos maiores e voltado para a mera diversão – onde apenas um artista certamente consumiria todo o investimento, o Varadouro apostou em um formato que agrega valor social e cultural ao evento, além da saudável diversão. Uma série de debates, com participação de representantes da ABRAFIN, do Circuito Fora do Eixo, de músicos, jornalistas, produtores e também de autoridades do setor cultural local trataram da produção, da organização e da integração da cena das várias capitais e regiões do Norte do país.
O debate, com troca de informações e de tecnologias, foi acompanhado de visitas à rádio e televisão Aldeia e também à Usina Cultural João Donato, modernos complexos oficiais voltados para a promoção e valorização da cultura acreana. A iniciativa dos organizadores do festival permitiu aos jornalistas de diversos órgãos de comunicação e regiões do país constatar a existência de políticas culturais que, diga-se, bem poderiam servir de exemplo para o restante do país.
O festival Varadouro, por outro lado, evidenciou sua inquestionável importância para o desenvolvimento da cena local, desde sua primeira edição, realizada em novembro de 2005. O selo Catraia Records já conta com um estúdio e distribuía dois singles recém-gravados, das bandas locais Nicles e Camundogs. A banda Los Porongas, que ano passado acabara de lançar seu EP de estréia, por sua vez, anunciava o lançamento de seu primeiro disco por um selo nacional (Senhor F Discos), previsto para o início de 2007.
Antes do final, a apresentação dos Porongas não deixou qualquer dúvida sobre o papel do festival para a história cultural do Acre moderno. No palco, uma banda madura, "pronta" musicalmente para qualquer mercado, mas totalmente fiel aos valores e sentimentos de seus amigos, de seus conterrâneos, de sua terra. Na platéia, um público que se espremia no espaço do Mamão Café naquele momento lotado, visivelmente emocionado, quando não em lágrimas, sentindo-se representado e valorizado em sua busca de afirmação e integração cultural, social e regional.
Acre e região Norte mostram sua cara
As apresentações, que começaram na sexta-feira, valorizaram o festival pela sua diversidade musical e divertiram o público que participou ativamente de diversos shows. Gogó de Sola abriu a sexta-feira afirmando a existência de uma música popular urbana, com pitadas de rock e um jeito acreano de soar contemporâneo, a exemplo do que acontece em outras capitais do país.
Mamelucos, por sua vez, levou para o palco um pouco da herança/influência do rock local, mostrando que o Acre tem uma história musical, da qual o convidado de honra, Pia Vila, é seu maior e mais cultuado herói. Aliás, Pia Vila proporcionou um dos momentos mais representativos do festival com a interpretação dos clássicos locais 'Aí Rapaz' e 'Cachaça' que, mesmo sem registro fonográfico, foi cantada pelo público, inclusive os mais jovens.
Já a novata e moderna Nicles simbolizou a importância do festival para o desenvolvimento da cena local, mostrando uma grande evolução em relação a apresentação do ano passado. Com uma promissora sonoridade "indie" à base de guitarra e teclado e um cantor carismático, a banda levou para o palco seu primeiro single com as músicas 'Coito Interrompido' e 'Entre Uma e Outra'.
Ainda local, Camundogs mostrou o lado pop-universal da cena acreana, com canções bem resolvidas, um cantor com total domínio de palco e de público. Com um disco e um DVD no forno, a banda liderada por Aarão Reis, é um dos destaques do rock local e regional, com suas músicas cantadas por uma fiel legião de fãs. A participação da "diva" da MPB acreana, Vera Padrão, em um encontro de diferentes gerações e culturas musicais, já justificaria uma noite do festival.
Também de Rio Branco, as bandas Auttreyd, Fire Angel e Álamo Kário foram as representantes do metal, do rock pesado e do crossover entre o rock e a linguagem regional, e mostraram a faceta de abertura e diálogo do Varadouro com as diversas e diferenciadas manifestações musicais locais.
De Belém, o Coletivo Rádio Cipó comprovou ao vivo a vibração do "baquete sonoro universal" servido em seu disco de estréia, 'Formigando na Calçada do Brasil'. Junto com eles, o Mestre Laurentino, "o roqueiro mais antigo do Brasil", no alto de seus 80 anos, fez da interpretação de 'Loirinha Americana' e da canção seguinte o "momento mais rock and roll do festival".
De Manaus, a banda Mezatrio confirmou a qualidade musical e instrumental já demonstrada em outros festivais nacionais, enquanto a "vizinha" Ultimato, de Rio Branco, adicionou vigor, energia e discurso politizado ao festival. Mezatrio é uma das revelações da região Norte e deve lançar seu disco de estréia em breve, por um selo regional, ou de forma independente.
Artistas "de fora" valorizam festival
A mineira Porcas Borboletas, de Uberlândia, deu o toque de humor e ironia ao festival, com música e letras na linha de bandas como Língua de Trapo e outros representantes da vanguarda paulistana dos anos oitenta. Muito aplaudidos, conquistaram o público que, no final, pediu insistentemente um "bis", negado pela produção devido ao tempo estipulado para cada apresentação.
A goiana MQN e os gaúchos Walverdes provaram mais uma vez a sua importância para a cena independente contemporânea que, sem eles, perderia em grande parte sua essência "rock" - a visceralidade, as guitarras no talo, o volume alto e o sentido de diversão. O power trio cuiabano Macaco Bong, por sua vez, assombrou os presentes com um arrebatador show de música instrumental, conduzida por três ótimos músicos.
A carioca Moptop, que fechou a primeira noite, por fim, realizou um ótimo show, mostrando uma eficiência e competência musical além da média nacional, justificando o espaço que conquistou na cena atual. Além disso, surpreenderam-se com boa parte do público cantando as suas canções.
* Fernando Rosa é editor de Senhor F e participou do festival Varadouro pela segunda vez, à convite dos organizadores.