Claro que é Rock: um festival para se refletir
* Fernando Rosa

O festival ‘Claro que é Rock’ foi criado, segundo seus organizadores, para apoiar a cena alternativa brasileira. Um iniciativa louvável que, para seu sucesso, não poderia conviver com situações que se registraram ao longo do evento.

A desclassificação de bandas que chegaram a ser anunciadas oficialmente como selecionadas (até o momento temos a informação da desclassificação d’Os The Darma Lóvers, de Porto Alegre, Bois de Gerião, de Brasília, e Violins, de Goiânia) deixa evidente três coisas: 1) a inexplicável falta de organização na execução do festival, 2) o desconhecimento por parte da organização sobre a realidade da cena independente brasileira, e 3) a falta de respeito com que a organização tratou as bandas tardiamente desclassificadas.

Desconhecimento e desorganização estão claros, já que qualquer pessoa que acompanha minimamente a cena alternativa sabe que artistas como os Darma Lóvers, Violins e Bois de Gerião possuem discos lançados de forma independente. E mais: as próprias bandas incluíam em seus releases, anexados às fichas de inscrição, informações sobre seus discos! No entanto, a Claro aceitou a inscrição e divulgou o nome dessas bandas como qualificadas para então receber “denúncias de terceiros” e desclassificá-las.

Ao serem desclassificados, os grupos ainda tiveram de passar pelo constrangimento de receber comunicados que incluem termos como "flagrante violação ao regulamento" e "comprovação de denúncias", dando a entender que os artistas agiram de má fé, sonegando informações e tentado burlar o regulamento. E, talvez mais incompreensível ainda, o mesmo critério não valeu para todas as classificatórias, assim como para as "substituições". A garantia para as bandas estarem ou não "aptas" a participar, ao final das contas, acabou sendo a existência ou não de "denúncia de terceiros".

É de se questionar tal tratamento dado às bandas. Principalmente quando se observa que o regulamento do festival mostrou-se inadequado para um evento que deseja se inserir dentro do cenário musical independente brasileiro e deixou, desde o início, várias bandas em dúvida sobre se poderiam ou não participar.

A dúvida surgiu justamente por causa da redação do artigo 3 do regulamento, o mesmo no qual a Claro se baseou para desclassificar os artistas. Este artigo diz que não podem participar bandas que tenham "contrato ou qualquer outra espécie de vínculo comercial com gravadoras, ou que não tenham lançado qualquer gravação em disco, compact disc, e/ou mesmo qualquer outro tipo de gravação que tenha sido veiculada comercialmente".

Tudo certo. Mas é importante verificar o que ocorre hoje na cena independente brasileira. Graças ao acesso a tecnologias mais baratas de gravação e a organização de pequenos selos e distribuidoras, é muito viável a um artista independente disponibilizar no mercado um disco produzido com recursos próprios.

Na grande maioria das vezes, artistas fazem acordos com selos e distribuidoras para viabilizar a comercialização de seus CDs. Esses acordos, quase sempre, são restritos apenas à obra específica que o artista está lançando, prevendo uma porcentagem das vendas para o selo e outra para o artista. Ou seja, algo bem diferente de ter um vínculo formal com uma gravadora.

Além disso, em muitos casos, bandas como Bois de Gerião lançaram seus discos há três, quatro anos, sendo hoje bandas independentes como outra qualquer. Mesmo CD-demos totalmente produzidos pelos artistas podem chegar a sites de distribuição nacional, bastando à banda se organizar e procurar os meios para viabilizar a transação.

Ficou claro para as bandas então, que o regulamento não conseguia comportar a realidade da cena independente e deixou várias bandas em dúvida sobre se inscrever ou não no festival. Afinal o que siginificava de fato o artigo 3? Eliminaria bandas com demo clipe na MTV ou com um CD lançado há quatro anos por um selo local? A dúvida permanecia porque parecia absurdo um regulamento que prejudicaria justamente as bandas mais organizadas e produtivas da cena, que com muito esforço haviam conseguido distribuir seus discos pela Internet e lojas especializadas.

Veio então a explicação que todos queriam. Essas bandas podiam participar, segundo foi noticiado pelo jornalista Lúcio Ribeiro, da Folha On Line, que publicou a seguinte declaração, atribuída a um porta-voz do festival, em sua coluna, Pensata:

"A partir do momento em que selo e banda que tenham algum relacionamento concordem em abrir mão do compromisso no período do festival, o grupo está apto a concorrer. Isso é uma coisa que a gente quer divulgar e muito, porque estamos com medo de boas bandas desistirem por causa disso. E o que não falta na Monstro é banda maneira. Pode ter lançado disco, como a Pipodélica, de Floripa, fez pela Baratos Afins. Hoje em dia eles são independentes, então podem entrar. Vamos supor que a Brinde, da Bahia, combine com o pessoal da Monstro de se desligar para concorrer, isso pode. É porque a banda tem que estar totalmente livre para qualquer ação que a Claro planeje."

Certas, portanto, de que não estavam descumprindo o regulamento, diversas bandas com discos já lançados se inscreveram no festival. Ninguém estava tentando enganar ou agir de má fé. Estavam todos apenas tentando participar de um festival que prometia ser sério e respeitoso com os artistas independentes.

Além da constatação da confusão e da falta de critérios objetivos, o festival deveria servir para que a cena independente reflita sobre essas relações estabelecidas e sua própria condição. É compreensível, junto às bandas, a pressão pela conquista do prêmio, pela visibilidade na mídia, e tudo o mais que cerca um evento desse porte. Mas, diante do ocorrido, talvez as coisas devam ser vistas com menos pragmatismo e mais perspectiva, espírito coletivo e ética.

* Fernando Rosa é editor de Senhor F.

 
 
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