Porão do Rock: destaque para frescor sonoro e boas canções
* Fernando Rosa

A banda uruguaia The Supersónicos foi o grande destaque do festival Porão do Rock, realizado em Brasília nos últimos dias 2, 3 e 4. Com um som baseado em guitarras impulsionadas por surf music e rock instrumental, o quarteto consolidou sua imagem no Brasil. Natural de Montevidéu, a banda já realizou cerca de 15 shows no país, a maioria em parceria com os Autoramas, mas ainda não havia tocado em um grande evento nacional. Simpáticos e divertidos, os três irmãos - Leo, Joe e Bob - e um amigo "sónico" – Pol - surpreenderam até mesmo aqueles que já conheciam sua música de disco. Um show que premiou a política de intercâmbio com as cenas dos países vizinhos iniciada pelo Porão do Rock.

Nos três dias do evento, outras bandas também se destacaram, em especial Cólera, Walverdes e Volver. A lendária Cólera fez um show com garra e sinceridade, incluindo a clássica 'Medo', que empolgou o público do primeiro dia do festival, dedicado ao som pesado. No segundo dia, o power trio portoalegrense Walverdes realizou um dos shows mais potentes e explosivos do festival, especialmente pela brilhante guitarra de Gustavo Mini. Já a recifense Volver (Senhor F Discos), com seu mix de garagem, Jovem Guarda e 'sixties', teve uma das mais calorosas recepções dentre as bandas independentes, com o público aplaudindo, cantando e pedindo canções. Um dos sons mais resolvidos do festival, Volver contou com o apoio técnico de Gustavo Dreher na mesa de som.

Das bandas locais, Phonopop, Bois de Gerião, Prot(o) e Capotones realizaram as melhores apresentações dentre as representantes da nova safra do rock de Brasília, e também destacaram-se na lista dos melhores shows do festival. As quatro bandas fizeram shows vigorosos, seguros e com muita energia, mostrando o amadurecimento da cena local. Phonopop interpretando 'O Tempo Contra Nós', um original de Beto Só ainda inédito em disco, talvez tenha sido o momento mais emocionante dos shows locais (também com o auxílio luxuoso de Yuri Freiberger no som, que também pilotou a mesa dos Supersónicos e Walverdes). À margem do "hype", em muitos casos injustificados, as bandas brasilienses apresentaram, cada uma no seu estilo, um repertório de canções originais de grande qualidade, uma das principais características da cena local. A novata Lucy and The Popsonics também honrou as cores da cena brasiliense, abrindo o segundo dia do festival, no sábado à tarde.

Entre as "grandes" – Ultraje a Rigor, Titãs e Skank, principalmente - os shows nivelaram-se pela facilidade com que as bandas pisavam no palco com o jogo ganho, fruto de longas carreiras, execução radiofônica e dezenas de hits. Das bandas "de fora", ainda merecem destaque os argentinos Los Natas, com seu "dub-metal", ou "stoner-roots", como brincavam alguns fãs nos bastidores, e os goianos (... e foda-se!) do Rollin' Chamas, com seu trash-rock sincero e letras críticas e divertidas. Forgotten Boys também empolgou o público com seu rock and roll direto, enquanto Erika Martins & Os Telecats fez bonito com seu pop sincero. Por fim, Cordel do Fogo Encantado, a última banda a se apresentar, confirmou a empatia que causa com seus shows catárticos.

Em sua nona edição, com uma estrutura invejável e dois palcos democráticos em termos de potência e qualidade de som, o festival Porão do Rock reuniu cerca de 45 mil pessoas nos três dias. Desta vez, avançando em relação às edições anteriores, o festival abriu mais espaço para as bandas locais, com o elogiável objetivo de valorizar a cena local. A organização do evento também acertou na forma de selecionar as bandas, com critérios mais claros e justos, incluindo a realização de seletiva em Goiânia. Outro fato importante foi a presença da Rolling Stone argentina na cobertura do festival, representada pelo jornalista Humphrey Inzillo. Ao final, a sensação de que, de fato, o Porão do Rock caminha para ser não apenas o maior, mas o mais importante festival independente do país.

ABRAFIN - O festival também incorporou mais uma reunião da Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN), que apresentou sua diretoria em entrevista coletiva no domingo. Os membros da nova entidade, que tem Fabrício Nobre (do festival Bananada) como presidente, realizou uma série de reuniões em Brasília, nos dias que antecederam o festival. A principal delas com o Ministro Interino da Cultura Juca Ferreira que, em longa audiência, expressou sua simpatia ao movimento dos festivais independentes e também disposição de apoiar as iniciativas da ABRAFIN.

* Fernando Rosa é editor de Senhor F.

 
 
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Edição 54
Balanço da década: os melhores discos independentes nacionais, ibero-americanos e internacionais

Em matéria especial, a seleção do portal Senhor F, que destaca Los Hermanos, Babasónicos (foto) e Strokes. Também destaque como personagem da década, o gaúcho Wander Wildner. O Top 25 nacional e ibero-americano está disponível para baixar.

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