Mutantes, Londres, 22 de maio de 2006
* Luiz Marcelo Vídero Vieira Santos

Coisa rara em minha vida, cheguei cedo ao show. Na verdade ao pub que fica a 100 metros da entrada (em Londres parece que há um pub a 100 metros de qualquer coisa). O pessoal foi chegando, ficamos ali batendo papo, notando a inusitada, mas neste caso esperada, maioria de brasileiros, e tomando uns pints, lógico. Já dentro do Barbican, comprei uma Brahma quente e fui dar uma olhada na banquinha de discos. Putz, tinha uma coletânea recém lançada sobre a Tropicália, com um encarte bacana, em vinil duplo, de capa branca, bonitaça. Devia ter comprado... Puxei papo com um cara que tava comprando o 'Let it Bed' (último de Arnaldo, que aliás não gostei). O cara começou a me dar uma aula!!!! "Este aqui é o último dele, aquele é bom, aquele outro mais ou menos, este é o primeiro, um clássico". E eu, "thanks, mate". Pô, nem no Brasil eles são conhecidos direito, ver o Barbican cheio de experts é um bom sinal. Bebi mais uma cerveja quente, encontrei um pessoal de Brasília, e fiquei por ali, sacando o movimento, cumprindo meu papel de relator do show.

Confesso que depois de todas as resenhas que saíram e de tudo o que disseram e mostraram sobre o retorno dos caras, fica difícil falar algo mais. Dizer que foi mágico, um momento histórico, sensacional, que a magia dos irmãos Baptista, que o carisma, o som, o talento, bla bla bla. Bom, sem nenhum exagero, foi tudo isso mesmo. Tinha 2 mil pessoas lotando o Barbican, sendo uns 40% de gringos, todos tensos, ansiosos, excitados, esperando o show. A espera era justa, pra quem esperou mais de 20 anos.

Mas sou suspeito, comprei os ingressos em fevereiro, quando recebi um email de um amigo: "Mermão, vai ter Mutantes em maio aqui em Londres, formação original, já comprei meu ingresso, fila G". E cinco minutos depois: "Tá na mão: G16!", que não é 7ª fila, mas o equivalente à uma terceira fila do lado direito. Perto demais! Não tão perto quanto um rasta de camisa verde que provavelmente comprou a A1 e pulou o show inteiro. Ele tirou umas fotos que devem estar distorcidas de tão perto que ele estava. O palco do Barbican é baixinho e não tem área de segurança que nem em megashow. Fiquei com inveja do cara, mas nem dá pra reclamar, eu também estava lá.

E estou nessa desde que comprei o ingresso, quando comecei a ouvir os caras incessantemente (na verdade os cinco primeiros discos e mais alguns de Arnaldo). Aliás, por tabela, todos os discos tropicalistas. Entrei em comunidade do Orkut, conversei com especialistas (um tal de Fernando Rosa, de Brasília), e na parte mais difícil da minha pesquisa, passei noites bebendo e discutindo a obra dos caras. Li também o livro de Carlos Calado, da Editora 34, que recomendo, apesar da abordagem e linguagem careta. Um dos pontos fortes é que ele conseguiu manter um equilíbrio entre os três, não valorizando excessivamente nenhum deles. Acho justo, pois não sou dos que acham, como Rita Lee, que os Mutantes eram uma viagem de Arnaldo e que ele é que era o verdadeiro gênio da banda. Acho que no caso deles vale, claramente, a tese de que o todo é maior que a soma das unidades. A interação deles é que levava a algo maior. Substituir qualquer um é impossível.

Nesse sentido, Zélia foi bem e foi até bastante aplaudida. Não tentou ser Rita, o que foi sábio. Foi simpática, fez algumas brincadeiras, mas não disputou espaço com os verdadeiros donos da festa. Acho que com o tempo ela vai se soltar, achar seu espaço na banda e no show. Pros curiosos, os vocais agudos foram feitos pela backing vocal. Dinho tocou bateria. Já tá bom, né? Parecia estar se divertindo. Serginho foi quem comandou tudo, brincando e conversando com a platéia. Achei legal que, apesar de irreverente, as piadas foram adultas (brincou com Blair e chamou Bush de El Justiciero). Ele não tentou imitar as macaquices que eles faziam quando eram adolescentes, o que seria ridículo. Ficou claro aqui que ali estava um cara de 50 anos, que mantinha o bom humor. Já Arnaldo ficou sentado o tempo todo, tocou e cantou em algumas músicas. Não dá pra exigir muito do cara. É que nem o caso de Brian Wilson: o grande lance é tê-lo de volta, ouvir sua voz, junto com o irmão, no mínimo por justiça à história.

A primeira vez que ouvi falar deles foi pela música 'Mutante', de Rita, que estava no auge da carreira solo, em 1981. A música é bonita e assustadoramente auto-biográfica. Depois disso, fui recebendo informações esparsas, irregulares, que a democratização do país foi permitindo aparecer e a tecnologia foi disseminando. Passados esses 25 anos, nomeada pela Time Out, a bíblia do bairrista entertainment britânico, "the world’s greatest psychedelic rock band", parece que o reconhecimento e a consagração chegaram pros caras. Não é pouco. Não é pouco mesmo. É bem mais que um Grammy latino ou um oscar de melhor filme estrangeiro, prêmios-gueto. É a grande indústria anglo-saxã sendo obrigada a se render. E isso só acontece em caso de xeque-mate. Como quando Fernanda Montenegro disputou o Oscar de melhor atriz e 'Cidade de Deus' o de melhor filme. Não ganharam, por que aí seria demais. Isso só aconteceria se absolutamente lhe faltassem argumentos. No caso dos Mutantes, faltou.

* Luiz Marcelo Vídero Vieira Santos atualmente mora em Londres, onde estuda e apresenta um programa de música brasileira na rádio Pulse FM.

 
 
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