* Olímpio Cruz Neto
Se alguém me dissesse, há 20 anos, que eu veria um show dos Mutantes, eu diria a pessoa que ela era louca. Se me falasse ainda que seria em Londres, no coração da terra de Lennon & McCartney, eu diria que era um sonho impossível. Pois aconteceu. Na segunda-feira, no centro da capital inglesa, Os Mutantes, a mais importante banda brasileira de todos os tempos, subiu ao palco para tocar. Há 33 anos, Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Ronaldo Leme, o Dinho, não se apresentavam juntos. Foi como ver que o pessoal da Cantareira continua junto. Como se o tempo continuasse parado. O trio continua produzindo música como poucos.
Durante duas horas, a mitológica banda tocou ininterruptamente seus clássicos para 2 mil pessoas. Um show de bom humor, astral e rock de primeira. Os Mutantes voltaram à ativa sem contar com outros dois fundadores: Rita Lee Jones e Arnolpho Lima, o Liminha. Mas fizeram bonito e deixaram a platéia urrando de felicidade, literalmente. Na terra dos Beatles, Os Mutantes provaram que estão no Olimpo da música pop. O show ocorreu no Centro Cultural Barbican, fechando o ciclo de exposições, debates e apresentações sobre o tropicalismo. A reestréia da banda contará ainda com outras apresentações no exterior, mais precisamente, nos Estados Unidos, onde percorrerão Nova York, San Francisco e Los Angeles, dentre outras cidades.
Serginho, Arnaldo e Dinho fizeram, ao lado da cantora Zélia Dunca, um espetáculo repleto de magia e sensibilidade. Os três geniais mestres contaram, além da cantora carioca, que viveu em Brasília nos anos 80, com seis outros músicos. Na fria noite de segunda-feira, aqueceram a todos com sua música inteligente e vibrante. Foram ovacionados pelo público, que aplaudiu, de pé, todos os Mutantes durante 7 minutos.
Do repertório original, os fundadores selecionaram 21 canções do seu rico repertório, indo do primeiro Os Mutantes (1968) até Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets (1972), passando por Technicolor. A platéia vibrou e se entregou ao som do grupo, que foi saudado pela imprensa britânica como "a mais importante banda psicodélica de todos os tempos"(Time Out).
O show começou com Dom Quixote, seguida de Caminhante Noturno, numa sucessão de clássicos como Ave Gengis Khan, Minha Menina, Baby, Desculpe, Baby, Virgínia e 2001, além de Balada do Louco, Ave Lúcifer e A hora e a Vez do Cabelo Crescer. Todos os arranjos originais foram mantidos por Arnaldo, Dinho e Sérgio. Os irmãos dividiram vocais naquelas harmonias bachianas simplesmente inesquecíveis. Destaque ainda para a voz de Arnaldo em Dia 36 – tocante – e Cantor de Mambo. Além dos arranjos originais, também alguns instrumentos e acessórios foram resgatados.
A guitarra dourada de Sérgio Dias, construída pelo doutor pardal da banda – Cláudio Cesar Dias Baptista, o gênio criativo e tecnológico por trás da alquimia sonora de Arnaldo e o irmão mais novo – foi usada durante quase todo o show. Assim como os flits e pedais. Um assombro para os fãs.
A homenagem aos Beatles veio em Ando meio desligado, com citações a While My Guitar Gently Weeps, homenagem explícita de Sérgio a George Harrison. Se Deus é Clapton, como apontavam os grafites na Swinging London, em 1968, Sérgio é Deus na dionisíaca Londres pós-7 de julho, neste conturbado século 21.
A irreverência mutante também se fez presente durante a apresentação de El Justiciero. Dedicada por Serginho ao presidente norte-americano George W. Bush e ao primeiro-ministro britânico Tony Blair. Até a mal-fadada Guerra das Malvinas, travada por Inglaterra e Argentina foi lembrada. Deboche que os ingleses adoraram.
Ao final do show, aclamados de pé pelo público, que gritava MU-TAN-TES, os músicos deixaram o palco e caminharam para o camarim. Estavam exaustos, mas felizes. Se tudo der certo, no próximo ano os Mutantes estarão em turnê pelo Brasil. E o show londrino estará à venda nas melhores lojas.
A apresentação vai virar CD e DVD, produzidos pela Sony Music, que investiu para registrar o retorno de Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Dinho. Seis câmeras cobriram toda a passagem da lendária banda por Londres. Desde os ensaios, até a passagem de som, passando pelos passeios na velha capital do rock. Mais louco é quem me diz que não é feliz depois de um show dos Mutantes. Eu sou feliz!
* Olímpio Cruz Neto é jornalista e colaborador de Senhor F.