A história do rock baiano, celeiro do gênero desde os anos 60
* Zezão Castro

Com 50 anos nas costas e sem sinal de reumatismo, o rock’n’roll baiano deve ter acendido velas a Deus e ao Diabo para continuar existindo. Dos tremeliques de Raulzito imitando Little Richard, passando pela onda do iê-iê-iê, o jazz rock do Creme e o hard rock do Mar Revolto, muita fumaça subiu após velhos conceitos terem sido incinerados na velha Bahia. Vale relembrar, em meio século de existência, o legado punk do Camisa de Vênus, em Salvador, os anos 80 com Ramal 12 e Utopia, os 90 com a Úteros em Fúria, a cena heavy metal... enfim, é muita farofa até chegar em Pitty e o papel da MTV no rock nacional.

Quando o rock chegou à Bahia não foram exatamente os requebros de Elvis que provocaram a ruptura, pois rebolado aqui nunca espantou ninguém. A primeira descarga elétrica, por assim dizer, se deu quando o filme 'Sementes da Violência' (Blackboard Jungle, 1955), de Richard Brooks, foi exibido em Salvador. Cinemas foram depredados pela adrenalina dos bad boys. Na trama, os estudantes assumiam o controle da escola, ao som de Bill Haley, que fazia o papel dele mesmo cantando a clássica Rock Around The Clock. Bastou.

Embora outros filmes tivessem ajudado a espalhar pelo mundo um novo padrão estético, com cabelos gomalinados e jaquetas de couro, as trilhas sonoras eram quadradas, sem o poder incendiário do novo ritmo. O roqueiro Raul Seixas, que morreu há 15 anos, foi um dos que assistiram às explosivas exibições de Sementes em Salvador e confessou em entrevista concedida à jornalista Ana Maria Bahiana, já nos anos 70, como foi que a onda bateu.

“Foi uma loucura pra mim. A gente quebrou o cinema todo, era uma coisa mais livre, era minha porta de saída, era minha vez de falar, de subir num banquinho e dizer – eu estou aqui. Eu senti que ia ser uma revolução incrível. Na época, eu pensava que os jovens iam dominar o mundo”, relembrou Seixas. Corria o ano de 1956, Raul tinha 12 anos e o outro pioneiro, Waldir Serrão, (Big Ben, a partir de 1967), 16. Os dois moravam na Cidade Baixa e foram apresentados por Titó, que disse para o garoto Raulzito que conhecia um cara com mais discos que ele.

Por convenção, o marco zero se deu quando Elvis Presley legitimou a fórmula “groove de negro em voz de branco” com o lançamento de 'Blue Moon of Kentucky' (Bill Monroe) no lado A e 'That’s All Right Mama', no B, em julho de 54. Os adolescentes foram inseridos oficialmente no circuito de consumidores de cultura musical. Outros vieram no vácuo. A molecada gostou. Os homens de negócio sacaram o movimento, prensaram, empacotaram e venderam o produto para o mundo.

Na Bahia, o primeiro programa dedicado ao rock surgiu em 1959 na Rádio Cultura. “Era o Só para Brotos,” com locução de Almir Duarte, depois Jaime Farrel e também Waldir Serrão. Com a febre do rock subindo, foi montada também a primeira banda de que se tem notícia na Bahia – Waldir Serrão e seus Cometas –, em 1957, com o próprio Serrão, Barbeirinho, Antônio Carlos, Edvaldo Gonzaga e Hélio Rocha, segundo ele conta.

A febre do iê-iê-iê baiano

O rock 60 no Brasil ganhou o nome de iê-iê-iê por causa do refrão de She Loves You, dos Beatles, em 1964. Um fenômeno curioso que só aconteceu no Brasil. Conseqüentemente, o solista perdeu terreno, e os conjuntos viraram moda em todo o mundo. Antes disso, do estouro dos quatro de Liverpool, Raulzito já tinha criado Os Relâmpagos do Rock, com os irmãos Thildo e Délcio Gama em 62 (antes de Os Panteras). Pepeu Gomes, com 11 anos, criou Los Gatos, Armandinho, no mesmo embalo, criou depois o Hell’s Angels, (com o irmão Betinho no baixo, Everaldo, na guitarra, Kau na bateria). No sertão de Caetité, surgiram Os Tártaros, especializados em Jovem Guarda.

Antenada, a Rádio Cultura promoveu em Salvador concursos de twist, com distribuição de brindes. Apenas um estúdio funcionava na Bahia nessa época, o JS Discos, na Rua Bonifácio Costa, onde foi registrado 'Nanny', em 64 (de GinoFrey), com The Panthers. No ano seguinte, eles adotaram o nome Raulzito e Os Panteras, que gravaria LP homônimo de estréia pela Odeon, em 68, mas nada aconteceu. Apenas uma rede de televisão funcionava nesse tempo, a TV Itapoan, inaugurada em 19 de novembro de 1960. A TV Aratu seria inaugurada em 1969.

As bandas surgiram em profusão, no rastro de Renato e seus Blue Caps, The Jetblacks como Os Labaredas e The Brazilian Crickets (Jeff Cesar, crooner, Álvaro, guitarra-solo, Brasil, guitarra-base, Joílson, baixo e Júnior, bateria). Havia também Eles Quatro, Os Cinco Loucos, The Gentleman (Pepeu com os irmãos Carlinhos e Jorginho), Os Príncipes do Iê-Iê-Iê (Luciano Souza, Ricardo Souza e Gegéu), Brasa Bossa, Thildo e Seus Bossas, Os Jovens, (também com Thildo), Os Jormans, MJ6 e Bossa Jovem.

Os Minos abrigava em sua formação dois ícones da guitarra brasileira Luciano Souza e Pepeu Gomes, na época contrabaixista. Completavam a formação, Ricardo Souza, irmão de Luciano, na guitarra-base, e o baterista Jorge Gomes, hoje músico de Gilberto Gil. “Nós fomos para São Paulo e ficamos dois anos por lá, tocamos no programa 'O Bom', de Eduardo Araújo, na TV Excelsior, e depois voltamos para cá, em 68”, conta Luciano Souza.

Em Salvador, nos anos 60, os espaços para shows eram raros. O principal point ainda era o Cinema Roma, o Templo da Juventude, na Cidade Baixa, onde Big Ben produzia as matinais do rock. No Hotel da Bahia, tinha o Grill Room. A Fenit, que sempre chamava bandas locais, e o Clube Mesbla, no Largo Dois de Julho. Havia também os programas de auditório na TV Itapoan, onde os roqueiros tocavam música de caubói.

Surf Music baiano

Thildo Gama, já saído dos Panteras, também furou o bloqueio e conseguiu lançar o compacto Thildo Gama com Os Terríveis pela Astor em 67. No lado A, 'Bonequinha', versão de Waldir Serrão para 'Pretty Woman', de Roy Orbinson. No B, vinha 'Você é Inspiração' (Jeff Cezar e Thildo Gama), ambas vinham com a designação surf, sendo, ao que se sabe, a primeira gravação de um artista baiano a designar sua produção dentro do subgênero surf music. Hoje, o roqueiro é também técnico contábil e ressurgiu artisticamente após a morte do parceiro Raul.

Na JS Discos, de Jorge Santos, que funcionava na Rua Bonifácio Costa, uma transversal da Rua Chile, em 1968, Tuzé de Abreu e outros gravaram um dos itens mais raros do rock baiano, a música-tema do filme 'Meteorango Kid' (André Oliveira, 1969). Nessa época, após voltar de São Paulo com Os Minos, Pepeu troca o contrabaixo pela guitarra e cria Os Leif’s, em 1968, com os irmãos Carlos e Jorginho. Os tempos já eram outros.

Tropicalismo: pimenta no hambúrguer

Com o surgimento do movimento estético cultural chamado Tropicalismo, em 1968, brota uma nova forma de expressão musical, sem a obrigação de só falar em festas de arromba, ao modo da Jovem Guarda, tampouco com a obrigação de fazer fundo musical para passeatas. Elementos da cultura nacional passaram a se mesclar com ingredientes estrangeiros como fórmula. Gil apresenta-se na capa de um LP com uniforme militar, como Hendrix fazia do outro lado do Atlântico, e Caetano discursava com atitude em 'É Proibido Proibir'.

Tom Zé completava a zona gravando 'Jimi Renda-se', colorindo o sarro. Gal Costa produziu os discos mais rock’n’roll de sua carreira no período 68-72, antes de ser uma costela da MPB. No caldo da Tropicália: Wanderléia, Beatles, Mestre Bimba, samba, Jackson do Pandeiro, Dodô e Osmar, Hendrix, Vicente Celestino e Mutantes. Os puristas acharam que eles eram americanistas por usar a guitarra. Pobres moços, não sabiam que Dodô (Adolfo Nascimento) tinha inventado o pau elétrico e a guitarra baiana.

Derretendo a cuca

Com a ida de Gil e Caetano para o exílio em Londres e o posterior mergulho na MPB, a peteca do rock na Bahia ficou nas mãos de Os Novos Baianos (NB), que lançaram o primeiro disco pela RGE com o título 'Ferro na Boneca', nome de uma faixa considerada iê-iê-iê psicodélico, com o pedal fuzz plugado na guitarra dando um timbre saturado semelhante ao de 'Satisfaction' dos Rolling Stones.

Em sua formação, ícones da MPB como Baby Consuelo (carioca de Niterói), Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão, letrista e mentor. Mais tarde, Pepeu, que já era Leif’s e tocou no primeiro LP, entrou, oficialmente. Viviam em comunidade no Rio de Janeiro, quando João Gilberto aportou no sítio da galera e a bossa-nova do juazeirense impregnou o grupo. Voltaram à pauleira num hiato em 'Barra Lúcifer', rockaço do LP 'Caia na Estrada e Perigas Ver' (Tapecar 76). Gravaram ainda oito discos e encerraram a carreira em 1980.

Os anos 70 testemunharam, definitivamente, a coroação de Raul Seixas. Gita (Phillips, 74) estourou e outros hits, frutos de parcerias com o “mago” Paulo Coelho. Os anos 70 cristalizaram as divisões do rock: glitter rock, progressivo jazz-rock, acid rock, punk rock e outras etiquetas que as lojas inventaram.

Surge então, por volta de 1973, o Mar Revolto composto por Luiz Brasil, Geraldo Benjamin, Octávio Américo, Raul Carlos Gomes, Jorge Brasil e Vicente dos Santos. “No palco, eles eram mais rock’n’roll do que nos discos e eu ainda tenho as fitas de rolo de um show no Acbeu dos anos 60 que era pau puro”, revela o ex-técnico de som da banda, Elio Abreu Neto, o Elinho. O grupo gravou dois LPs, já nos 80, e acabou pouco depois.

Mito do jazz-rock baiano

Mas ninguém brilhou na constelação rock dos anos 70 mais do que o guitarrista baiano Luciano Souza, que integrou o grupo Creme (substituindo Perinho Santana) ao lado de Moisés Gabrielli (baixo), Jaime Sodré (bateria) e Luciano Silva (baixo). Em 1974, o grupo tinha radicalizado na “nordestinização do jazz-rock, com o show 'Esporas e Chicotes', improvável encontro de Mahavishnu Orquestra com Luiz Gonzaga.

É um mito vivo, embora, com seu jeito simples, não pareça dar a mínima para os que insistem em lhe chamar de mestre. Reclama apenas que velhos amigos não o visitam mais no apartamento 102 do Edifício Cachoeira, na Avenida Visconde de Itaborahy, em Amaralina. Mergulhou fundo na onda psicodélica: “Minha geração foi a geração do ácido”, relata. Sofreu na pele as seqüelas e vive em paz com elas.

Quando integrava o conjunto de rock progressivo Som Nosso de Cada Dia, um dos cinco melhores em jazz-rock do planeta, como dizia a crítica da época – a banda abriu para o Gênesis, em São Paulo, grupo de progressivo inglês –, o guitarrista Steve Hackett deu-lhe a guitarra após vê-lo tocar. Vendeu a guitarra para Armandinho, anos depois.

A cena 70

Em meados dos anos 70, um dos clãs mais musicais da Bahia também estava na onda do rock’n’roll: os Brasil, que tocavam com outros grupos nas matinês rock do Teatro Vila Velha. “Uma delas era a Nirvana, onde tocavam Mô Brasil e Octávio Requião, além dos Nuvens Negras, que tinha Luiz Brasil na formação”, relembra o jornalista Eduardo Bastos, que trocou o sertão de Caetité pela capital quando fervia o jazz-rock em 1978. Os shows nessa época aconteciam no Teatro do Colégio Iceia, na Faculdade de Arquitetura da UFBA ou no Teatro Vila Velha, reduto da bossa nos anos 50 e 60 e que, na década seguinte, viraria hangar do rock’n’roll baiano e celeiro do punk com o Camisa de Vênus.

* Zezão Castro é jornalista na Bahia. Este texto foi publicado originalmente no jornal A Tarde.

 
 
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O festival ocorreu nos dias 6,7 e 8, em Porto Alegre, na casa de shows Opinião, com patrocínio da Petrobras, via Lei Rouanet, do Ministério da Cultura do Brasil, e apoio especial da Secretaria de Cultura do Estado do RS e da central sindical Força Sindical - RS.

> Ouça entrevista com o jornalista argentino Claudio Kleiman sobre o festival, feita por Joseba Martin, do programa La Jungla Sonora, da Rádio Euskadi, do País Basco, Espanha.

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Desde janeiro de 2008, veiculado pela Rádio Câmara, da Câmara dos Deputados, o programa Senhor F Sem Fronteira difunde a música iberoamericana de todas as gerações e países.
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