* Fernando Rosa
O álbum ‘Full House’ foi lançado em 1972, inclusive no Brasil. Era o terceiro disco da banda, sucedendo os também clássicos ‘J. Geils Band’ (1970) e ‘The Morning After’ (1971). Formada em 1967, em Boston, o sexteto fugia um pouco do som de “sua época”. Não tocava pesado, nada tinha a ver com progressivo e, menos ainda, com psicodelia. A comparação, se possível, era com os velhos Stones de meia-cinco, com os conterrâneos Canned Heat ou, mesmo, com o veterano John Lee Hooker. Aliás, mais do que isso, era como se fossem todos os citados, mas em uma versão acelerada, etílica. Algo como um ‘Exile on Main Street’ (dos Stones, 72) ao vivo, ou os futuros Ramones e Jerry Lee Lewis, juntos, tocando boogie-woogie.
A música que abre o disco – ‘First I Look at The Purse’, um original de Smokey Robinson, gravada pelo The Countors – é uma das citadas no livro ‘31 Canções’, de Nick Hornby. Lembrando de sua adolescência, o autor de ‘Alta Fidelidade’ descreve o impacto da música sobre ele e, por certo, sobre todos os jovens naquele início da década de setenta. Assim como ele, todos que ouviram ‘Full House’ naquela época foram contagiados imediatamente pela brutal e festeira energia que, só se viria a saber algum tempo depois, antecipava o ‘punk rock’. Sim, ‘Full House’, junto com ‘Slade Alive’, do Slade, deve ser incluído entre os discos que, de certa forma, anteciparam o novo gênero.
O álbum é uma sucessão de hits executados com absoluta maestria e entusiasmo pelos bostonianos Peter Wolf (vocal), Seth Justman (teclados), Magic Dick (gaita de boca), Stephen Jo Bladd (bateria), Danny Klein (baixo) e J. Geils (guitarra). São oito faixas, entre covers e originais, emendadas num fôlego só, como se fossem apenas duas músicas, uma no lado ‘a’ e outro no lado ‘b’ - uma aula ao vivo de ritmos negros americanos, por um bando de caras brancos. E, talvez o mais surpreendente para a época era que, apesar da banda levar o nome do guitarrista, tinham tanto ou mais peso no som da J. Geils Band o piano de Justman, a gaitinha de boca de Magic Dick e, especialmente, o vocal agressivo de Peter Wolf.
Além do som, J. Geils Band, que acabou transformando-se em uma das mais clássicas e cultuadas bandas americanas dos anos setenta, tinha um jeitão totalmente na contra-mão dos modelitos da época, vestindo jaquetas pretas, ternos brancos, chapéus e outros adereços extemporâneos. Depois de ‘Full House’, o grupo enveredou cada vez mais para o terreno do soul e do funk, em um primeiro momento e, depois, para sonoridades mais, digamos, “pop”, mas sem antes produzir outros grandes álbuns. Entre eles, ‘Bloodshot’ (1973), ‘Blow Your Face Out – também ao vivo (1976), ‘Monkey Island’ (1977) e, por fim, ‘ Sanctuary’ (1978).